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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Condutoras de Domingo

29
Jun08

Condução Defensiva - Zézé Camarinha

condutoras de domingo

É a notícia do Verão: Zézé Camarinha retira-se das praias algarvias e não deixa sucessores. Assim se extingue uma raça: o macho man português. Para assinalar esta catástrofe sem par no universo amoroso-erótico, foi lançada a autobiografia deste predador das areias do Sul de Portugal, deste homem que já partilhou o seu leito de paixão com quase 2000 mulheres: Zézé Camarinha – O último macho man português. Como notaria qualquer professor catedrático interessado em problemáticas intimistas e de auto-representação, o eu que nesta autobiografia se dá a conhecer toma-se a si mesmo como campo de análise, mas escapando para uma ficção sua, em que o eu é já um outro, mais profundo e maior. Deste modo, surgem neste livro não apenas as aventuras auto-elogiosas de Zézé Camarinha, como também os inúmeros safaris amorosos de Mr. Johny of the Moustache from Praia da Rocha ou os elogios que são atirados por pares de inglesas platinadas ao excelentíssimo “Linguinha d’Ouro”. Ao lermos as páginas desta obra, descobrimos que o melhor do macho lusitano é sem dúvida o pior do homem português, um ser capaz de desfiar memórias com uma sinceridade desarmante que lhe retira toda a sensatez supostamente adquirida no fim de uma carreira brilhante. Por exemplo, Camarinha é o tipo de machão capaz de assumir, em plena retirada dos areais onde deixava as bifas doidas quando fazia «alongamentos, pinos e esparregatas», que «quando não conseguir levantar o pessegueiro», vai recorrer «ao Viagra». E remata: «Vergonha? Vergonha é roubar e não conseguir fugir!». Ora aí está o espírito honesto e inventivo que se esconde por detrás de um par de óculos bem escuros. Sem ele nenhuma mulher do planeta teria descoberto o prazer, pois, como ele próprio assume a páginas tantas, «antes de se terem lembrado que as mulheres podiam ir à tropa, comigo já elas marchavam todas.» São estas as memórias que ajudam Camarinha a reconstituir o seu passado como um puzzle sem peças perdidas, onde tudo encaixa na perfeição, permitindo-lhe ter resposta para o maior mistério da humanidade. Ora vejam: «Quem sou eu? Sou o último dos machos latinos, que tem o sangue de macho a escorrer nas veias, que sente orgulho em satisfazer as tão necessitadas mulheres que lhe chegam de todo o mundo!» E continua, desvendando os mistérios da sua identidade: «Eu na outra reencarnação devo ter sido penso isofrénico, daqueles da Evax ou da Insónia, pois adoro andar entre as pernas das mulheres!» Felizmente, mesmo na hora da despedida, Camarinha reitera o seu desprezo pelas portuguesas. Está farto de nós. Não faz mal. Como reconhece, ele também já não dá – e cito - «dez seguidas como antigamente!» Retira-se dos areias para explorar o mercado erótico dos bares e deixa um último desejo: «Quando morrer quero que o meu pénis seja embalsamado e cremado, e que as cinzas sejam espalhadas pelas praias do Algarve de Lagos a Faro! Deste modo as praias serão purificadas porque haverá cinza suficiente!»

22
Jun08

Condução Defensiva - Ronaldolândia

condutoras de domingo

É tempo de abandonar o Guia Euro 2008 do DN. Faço-o com uma lágrima no canto do olho que paulatinamente se começa a misturar com um sorriso capaz de espalhar a felicidade por este nosso carro. A razão chama-se Ronaldolândia e bem que podia ser um passeio radical pelos 184 centímetros que perfazem esse agradável parque de diversões humano que responde pelo nome de Cristiano Ronaldo. Começávamos a escorregar pelo gel do cabelo, descíamos em direcção à zona turbulenta do abdómen, em tudo semelhante às ondas simuladas de um parque aquático, e terminávamos em plena biqueira, com um chuto capaz de nos transportar para a estratoesfera sem necessidade de passar pela casa da partida e pagar fosse o que fosse. Muito melhor que qualquer feira popular, sem dúvida. Mas, infelizmente, Ronaldolândia não é um parque de diversões; é um livro escrito por José Marinho, esse grande vulto da literatura desportiva, no qual se contam os segredos do futebol moderno. Logo aqui temos que parar para pensar, coisa rara no desporto rei, mas assaz frequente na literatura desportiva. Que é isto do futebol moderno? Parece que o futebol moderno é diferente daquele que se praticava há 20 anos. Isto até o senhor de Lapalisse diria. Só não diria, se calhar, a frase poética com que neste livro se distingue esse futebol de há duas décadas do moderno: ao que parece, nesse tempo, ouçam bem, «a bola era redonda, mas o mundo não saía da quadratura imensa das ideias generosas.» Isto não é apenas poesia, é geometria poético-literária, à qual se recorre para sustentar que o futebol moderno «não tem tanto para dar aos seus adeptos» porque – e continuo a citar - se «perdeu a meio caminho da sua evolução e tirou aos pobres para dar aos ricos. Antes, era uma festa, hoje é um exagero.» Ou seja, o futebol moderno é o protótipo do herói moderno: egoísta, ganancioso, corrupto, entediante, desmedido, inconsequente - uma criatura execrável, em suma, sobre a qual, mesmo assim, vale a pena reflectir em livro, numa tentativa de equilibrar a coisa e devolver algum aos pobres. Lá está: antigamente, dizia-se «em terra de cegos quem tem olho é rei»; agora, diz-se «em terra de pobres quem saca ao desporto-rei é rico». E isto é apenas uma das técnicas que se pode aprender com Ronaldolândia. As outras têm a ver com o Euro 2008, o Cristiano e a táctica 4-4-2 e sobre elas falam personalidades como Valdano, Humberto Coelho e Mourinho. Mosqueteiros unidos em nome de um objectivo, que é como quem diz todos por um: o bom futebol. Mourinho resume-o assim (em bom português, ainda): «O futebol de ataque começa quando o Makelele pega na bola e passa para o lateral-direito, que está mais avançado e toma conta da situação. Se pode fazer qualquer coisa, ou corre pelo seu flanco ou passa para um companheiro mais adiantado. Se não controla a situação, volta para trás e devolve a bola a Makelele. Isto para mim é que é o futebol de ataque.» Isto para mim é que é uma verdade de Lapalisse – uma daquelas que, escrevendo Petit onde está escrito Makelele, transformaria este Euro 2008 no mais entusiasmante parque de diversões.

 

15
Jun08

Condução Defensiva - Euro 2008

condutoras de domingo

Mais uma semana, mais um passeio pelo Guia Euro 2008 do DN. Não me consigo libertar, é verdade. Mas a questão que se deve colocar é COMO libertar-me se, quando penso que já não há mais nada a explorar, deparo-me com textos maravilhosos, como aquele que Rosa Lobato Faria dirige a Deco. Parece uma singela cartinha, em que um eu deslumbrado se dirige a um tu, e na qual proliferam os diminutivos, bem ao tamanhinho de Deco, assim como a repetição de uma espécie de incansável refrão, tão inocente que duvido que Deco, numa primeira leitura, consiga entender toda a força magnética que encerra aquela pequenita frase. É com ela que Rosa Lobato Faria começa o texto. Diz ela – e ouçam bem, que isto é coisa para marcar a literatura desportiva que temos vindo a analisar nas últimas semanas – diz ela, então: «Vai, Deco!». Eu não me quero entusiasmar, mas dá-me ideia que do mesmo nível que isto, tão suave e arrebator quanto isto, só mesmo o «Bate leve levemente como quem chama por mim». Mas qual Balada da Neve, qual quê! É a Balada do Deco que, de agora em diante, será para sempre citada como o melhor exemplo poético-pastoril da literatura portuguesa. Sublinhado, ainda por cima, pelo facto de todo este artigo de Rosa Lobato Faria ser pulverizado magnificamente por diminutivos que, paradoxal e poeticamente, enaltecem Deco. Da «carinha séria» que ele tem quando remata à baliza ao «Maradoninha» que ele foi quando jogava no Bonfim F.C.; do «magrinho» que ele era aos 15, 16 anos aos pormenorzinhos que marcaram o percurso futebolístico do rapaz e que, relatados até à exaustão, enchem esta linda composição de detalhes romanescos. E com isto corrijo-me: não se pode comparar este texto à Balada da Neve; ele é muito superior e arrisco-me a sustentar que só pode mesmo ser comparado a um artigo da wikipédia. Esta é, aliás, outra das características grandiosas do texto de Lobato Faria: ao misturar factos que oscilam entre datas, épocas, clubes, salários, enfim, os marcos do percurso desportivo de Deco, com factos a que poderíamos chamar desportivo-pessoais, este artigo faz nascer no leitor a vontade de o editar sem parar, de emendar, reescrever, corrigir, alterar – tal e qual como num artigo da wikipédia. E isto, minhas amigas, caros ouvintes, é a prova de que este tipo de literatura, é a prova de que a literatura desportiva, oferecida assim de bandeja, posta assim nas mãos de quem nada sabe de desporto e segue apenas o seu instinto literário, se transforma na mais contemporânea de todas as artes, aquela que tudo sintetiza e incorpora: a banalidade, o rascunho, a paráfrase e a superficialidade, em grande estilo e apenas a troco de uns tostões. Dá vontade de dizer: «Vai, Rosa Lobato Faria!» Ou, então, terminar, surpreendendo-vos com a exclamação da derradeira e improvável frase deste texto: «Vai, Deco!»

08
Jun08

Condução Defensiva - Guia Euro2008

condutoras de domingo

Enquanto os portugueses perseguem a selecção através da televisão, eu prefiro, qual Lucky Luke, seguir o meu caminho solitário e deixar-me estar agarradinha ao Guia Euro2008 do DN. Bem sei que já se passou uma semana desde que lhe peguei, mas não me consigo cansar. Estou oficialmente viciada em reler aquela soma inquietante de pérolas literário-desportivas. Proponho, aliás, e uma vez que a literatura Maddie se adequa mais ao Inverno, um investimento neste novo género, tão levezinho e bom para consumir na época estival enquanto se sorve uma mini ou um caipirão. E já sei qual o texto que merece honras de publicação inaugural. Chama-se «Simão Sabrosa por... José Rodrigues dos Santos». É arrebatador, é um dos mais tocantes aglomerados de frases publicados neste guia. Em apenas duas colunas, o jornalista/escritor consegue equiparar-se a uma equipa de futebol nacional: ele escreve como elas jogam, combinando de modo inesperado banalidades, pormenores irrelevantes e estratégias desportivas megalómanas. Tudo isto num estilo que deixa o leitor, tal como deixam as equipas nacionais o adepto de futebol, de boca aberta. Rodrigues dos Santos tem essa rara capacidade de cativar o leitor, de o interpelar, antecipando o momento em que estamos prestes a abandonar o barco. Veja-se este passo tão assertivo: «Antes de parar de ler, preste atenção ao seguinte». Como sucede com qualquer treinador da bola, Rodrigues dos Santos tempera o seu idealismo com um certo realismo; ele conhece os hábitos de leitura dos portugueses e a aversão ao tédio. Por isso, abre-nos os olhos para coisas que nunca antes nos tinham atravessado o pensamento. Ora vejam se já se tinham apercebido disto: «Simão é um dos maiores talentos da selecção, mas, por ironia, não tem lugar assegurado no onze inicial. Além de Ronaldo, tem de enfrentar a concorrência de Quaresma e Nani.» Repararam como apenas numa frase conseguiu atribuir três rostos à ironia? Primeiro rasteou-nos: é ironia; depois placou-nos: não é nada, são estes três tipos! Digam lá se isto não é de escritor capaz de se impor como pioneiro na literatura desportiva?! Sobretudo porque Rodrigues dos Santos nunca consegue adormecer o jornalista que palpita ansioso no seu coração, brindando os leitores com constantes revelações. Por exemplo: «Os adeptos chamam a Simão o “pequeno pónei” e o “petit nom” assenta-lhe na perfeição. Tal como os póneis, Simão precisa de um ambiente certo para crescer com confiança». Depois de isto ficar assim para sempre fixado na História da Literatura Portuguesa, vai estalar a polémica. Eu não sei como lidarão com esta metáfora os protagonistas da série animada My Little Poney. Passarão eles a ser chamados de Simõezinhos? Terão eles que mudar o título da série para My Little Simon? Não sei, é uma questão que fica no ar. Tal como aquela com que Rodrigues dos Santos, vestindo o fato de seleccionador nacional, termina o seu texto: «Imaginem a cara de um defesa que, de repente, enfrente Quaresma e Bosingwa de um lado e Nani e Simão do outro, com Cristiano no meio e Deco atrás. Acham absurdo?» Eu acho espectacular! Sobretudo porque lá no meu íntimo pressinto que Rodrigues dos Santos, depois de escrever esta pergunta, levantou o olhar para o ecrã do computador e... piscou o olho.

01
Jun08

Condução Defensiva - Craques

condutoras de domingo

Cada época tem os heróis que merece. Os nossos não combatem em guerras nem cruzam mares desconhecidos; são heróis ultra-pós-modernos que se esfalfam a correr atrás do esférico, investem em carros desportivos e carregam pesadas pochettes Louis Vuitton - sacrifícios feitos em nome do entretenimento nacional. Por agora, contam-se em 23, os 23 craques que o DN homenageia no Guia Euro2008. Até aqui, tudo velho. Um guia faz sempre falta: dá para consultar os jogos e marcar os resultados. Só que no DN quiserem mais; quiseram ser tão originais como a lista de convocados de Scolari e pensaram: «Se isto é para ser sobre bola, vamos dar-lhes outra coisa completamente diferente!» E, pimba, deram-nos com escritores. O que até podia ser bom se o resultado se aproximasse de um livro do Assis Pacheco, Memórias de um craque. Só que os 23 craques são tão novinhos que ainda não têm memórias para partilhar. Mas isso resolve-se! Como? Pedindo a super-craques-da-escrita, os «25 maiores nomes da escrita em português», segundo o DN, que componham textos sobre os jogadores, o seleccionador e o futebol. E lá está o Nobel a homenagear o desporto-rei, confessando que folheia a secção desportiva «apressadamente» e que gosta é de clubes espanhóis, coisa boa de se ouvir em tempo de apoio à selecção... Estão lá Mega Ferreira, Álvaro Magalhães, Gonçalo M. Tavares e Mário Cláudio. Depois chegam os “Paulos Ferreiras” desta lista: Rosa Lobato Faria, Rodrigues dos Santos e Victorino d’Almeida – com Inês Pedrosa à cabeça enaltecendo Felipão num texto em que defende que o facto de Scolari não ser português lhe poupa «aquele impacto vísceral» característico dos lusos. E o murro no sérvio?! Foi diferente! Não meteu vísceras! Apenas a cabeça perdida deste lindo ser humano brasileiro, coisa que Pedrosa até apreciou. Na lista de convocados literários, há ainda mais mulheres, como Lídia Jorge, encarregue de passar a mão pelo pêlo de Miguel. Tornou-o personagem de um romance onde se lava roupa suja, se invocam santinhas e se confessa um amor proibido por se basear em pressupostos falsos: «Miguel, só Miguel, sem apelido nenhum, é o meu favorito. Aqui há dias, falaram-me de um romance rocambolesco passado entre o Miguel e o Benfica. Fiquei do seu lado. O Miguel entra em campo e corre ali naquela zona em que não se dá por ele. Não vem à frente». Lídia não deve ser do Benfica, não se deve lembrar da época 2003/04 e muito menos de um golo do Miguel contra o Estrela da Amadora. Por isso, em vez de usar esses dados para fazer dele mais do que um defesa, transformou-o de herói em vítima, na esteira dos mais comoventes guiões de novelas da TVI. Caramba! Como se já não bastasse terem entregue Simão a Rodrigues dos Santos e Deco a Lobato Faria! Ainda se deram ao trabalho de provar que as mulheres não percebem de bola. Nós estamos indignadas e consideramos que tamanha artimanha só pode ser rectificada com uma manobra muito mais ousada do que este guia. Original, original seria o DN investir num Guia Feira do Livro2008, com 23 craques-da-bola a dissertarem sobre as qualidades literárias de 23 craques-da-escrita. Ficamos, assim, à espera d’«as figuras femininas na escrita de Baptista-Bastos» por Pepe, de «Zink, a pornografia e o humor cáustico» por Bosingwa ou de «Crimes capitais – a literatura policial de Francisco José Viegas» por Bruno Alves.

25
Mai08

Condução Defensiva - Livros

condutoras de domingo

Sugiro a todos os autores do mundo que venham até Portugal para se inspirarem. Portugal é um paraíso criativo, um estímulo à imaginação. Mas não apenas pelo facto de ter sol, luz, rios, mar e essas coisas bonitas. Portugal é O país que precisa realmente da quantidade de títulos que têm chegado às livrarias e que, noutro país do mundo, servem apenas para passar o tempo ou para deixar os leitores mais informados. Cá estes livros têm aplicação prática, eles alimentam-nos como dez doses de coca alimentam Amy Winehouse. Vou dar alguns exemplos, começando com uma obra de ficção. Chama-se A Loja dos Suicídios e, de acordo com o que está escrito na capa da edição portuguesa, é uma “pérola do humor negro”. Entre nós, este livro é muito mais que isso: ele é todo um colar de pérolas, ou melhor, é um verdadeiro diamante. Isto porque conta a história de uma família responsável por uma loja cujo lema é «A sua vida foi um fracasso? Connosco a sua morte será um sucesso». Ora, eu pergunto: que português não teve já, nos últimos anos, um acessozito, uma vontadezita, digamos, de se suicidar à maneira, de preparar uma morte porreira, livrando-se disto tudo, para sempre e à grande, numa espécie de festarola com material explosivo, DJ, pista de dança e uma série de remixes da marcha fúnebre?! Aposto que neste momento muitos de vós estão a pensar na razão pela qual investiram tanto no casamento em vez de gastarem uns contos de réis em materiais capazes de proporcionar uma morte em beleza. Lá está: fizeram isso por não haver entre nós uma família assim, com uma loja assim, uma família que nós queremos arrancar da ficção por sabermos que Portugal a merece. Assim como merece parte dos lucros das vendas dos manuais de auto-ajuda que têm sido editados. Estou convencida de que muitos são inspirados na realidade portuguesa. E os que não são pecam por isso. Vejam dois casos recentes. Quatro Horas por Semana é um livro que explica como trabalhar menos e ganhar mais. Não preciso dizer mais nada! Este é o assunto em que os portugueses andam a tentar especializar-se desde tempos imemoriais. Sobretudo a classe política, que tão bem representa a Nação. O outro título é dos que pecam por o seu autor não conhecer Portugal. Chama-se A Verdadeira Máquina de Ganhar Dinheiro e, se o senhor que escreveu este bestseller tivesse passado por cá antes de deitar mãos à obra, teria percebido como lhe tinham bastado 4 segundos para compor o livro, que ainda por cima seria ecológico, pois não obrigaria ao gasto de mais do que uma página, uma singela folhita, na qual apareceria: «A verdadeira máquina de fazer dinheiro é uma acumulação de apostas múltiplas no Euromilhões, de fé, esperança e rezas do terço e ainda de muitas horas de rabo enfiado no sofá em frente à televisão». E estava feito o livro, provando-se assim que Portugal tem de facto dado muitíssimo aos escritores deste mundo. Está na hora de receber algo em troca. Como, por exemplo, um pavilhão especial em todas as feiras do livro do mundo.

18
Mai08

Condução Defensiva - Literatura Light (Literalmente)

condutoras de domingo

O Verão aproxima-se e, com ele, o sol, a praia e muitos pedacitos de carne à mostra. O que é o mesmo que dizer que está a chegar a época de mostrar o corpo e esconder o cérebro, dobrá-lo muito bem dobradinho e acondicioná-lo algures num canto escuro, onde possa descansar, numa espécie de hibernação dormente que apenas nos deixa pensar em como seria bom termos o corpo da Gisele Bündchen. Mas este Verão promete ser diferente. Não, não vamos deixar de sonhar com o corpo perfeito; sabemos, apenas e finalmente, o segredo para o atingir. E como somos gente boa vamos partilhá-lo com todos. Pois é, tantos anos a derramar suor no chão do ginásio, tantos anos a encomendar passadeiras, cintas vibratórias e celluless no Gigashopping e afinal o segredo é... ler. Isso mesmo: ler. A pedido de uma livraria inglesa, uns quantos especialistas britânicos descobriram que os livros de acção, aventura e sexo queimam calorias. Aliás, queimam o dobro das calorias habitualmente consumidas na leitura. Isto não só explica por que razão o Kama Sutra ilustrado tem sempre uns indianos muito magrinhos nas imagens, como também apresenta o único método de emagrecimento inteligente do mundo. Se pensarmos que um corpo parado consome uma caloria por minuto, imaginem um corpo parado a segurar um calhamaço erótico de 800 páginas, coisa que ainda por cima serve para tonificar os músculos dos braços se se estiver deitadito na toalha com o livro erguido ao alto. Simples, não é? Creio mesmo que a felicidade nunca esteve tão ao nosso alcance como neste Verão.

 

 

 

Reparem bem: basta estenderem-se ao sol e alternarem a leitura da colecção completa d’Os Cinco com A Vida Sexual de Catherine M., o livro em que Catherine Millet narra as suas incursões pelos territórios tortuosos do sexo (atenção, não confundir com a autobiografia da Maria Filomena M., livro que só engorda e que compromete o sucesso desta técnica). Outra hipótese (e são tantas, meu Deus, são tantas!) é ir saltando de qualquer um dos Harry Potters para qualquer um dos do Marquês de Sade ou, para os machistas contemporâneos, qualquer um dos de Henry Miller. Enfim, a lista de possibilidades é infinita e bastante mais eficaz do que um frasco de herbalife. Acredito mesmo que é desta que os hábitos de leitura vão mudar em Portugal. Sobretudo porque até hoje ninguém anunciou que este novo método de emagrecimento tem os efeitos secundários de umas bolachas que a Madonna devora porque emagrecem. Emagrecem, emagrecem, mas inibem o apetite sexual e muitos destes livros, meus amigos, fazem exactamente o contrário. Por isso, pela vossa saúde mental, pela vossa beleza física, recomendo que da próxima vez que se puserem a caminho da Costa da Caparica passem antes os olhos pelas vossas estantes...

 

 

11
Mai08

Condução Defensiva - Pinto da Costa

condutoras de domingo

Serve esta condução defensiva para lançar um apelo a Pinto da Costa. Numa entrevista publicada na Visão, o presidente do FCP levantou a hipótese de vir a escrever as suas memórias. Ora eu, depois de ler as 10 páginas da entrevista, desafio-o a lançar-se já na aventura da escrita. Isto porque tudo me leva a crer que Pinto da Costa já tem aquilo de que necessita para compôr um livro jeitoso. Em primeiro lugar, tem uma tese com profundidade suficiente para requerer uma defesa consistente e aliciante, capaz de deitar por terra alguns dos mitos do País: «No futebol, existe muita gente boa, culta e instruída. Mas, como em muitas coisas da vida, também temos de lidar com pessoas boçais, incultas e até estúpidas.» Ora isto retoma, desde logo, parte dos temas que têm marcado a tradição literária portuguesa. Aliado aos três grandes topos pintocostanianos – o benfiquismo como causa da degradação moral do indivíduo; a região norte do país como construção ficcionada pelos lisboetas para garantirem o seu domínio geo-estratégico; a nostalgia da corrupção, simbolicamente considerada a via de acesso a uma realidade perdida in illo tempore - teríamos certamente uma obra que se destacaria pela originalidade e pela capacidade de conjugar a tradição com o talento individual deste futuro autor. Por outro lado, Pinto da Costa já possui também as suas máscaras, fundamentais para qualquer aspirante a escritor. Diz ele que «o culto da personalidade é detestável», mas por detrás desta afirmação esconde-se um eu estilhaçado pela necessidade de dominar um clube de futebol, de empregar o possessivo quando se refere ao treinador desse clube ou pela irrepremível vontade de se candidatar à presidência da câmara da segunda cidade do país, enfim, um eu em luta contra a sua própria cisão interna. Mas há mais: Pinto da Costa, mesmo antes de começar a escrever, revela-se já um mestre do estilo. É notório o fascínio pela linguagem metafórica e alusiva. Reparem: «Se certos papagaios que aí andam fossem escutados e fosse vigiada a forma como fazem contratações...» É de uma riqueza estilística sem par, coisa que se nota ainda melhor nos momentos em que Pinto da Costa destila subtileza. Vejam como justificou por que razão por vezes cai nas tentações do sarcasmo: «É difícil não baixar o nível com certas pessoas. Se mantiver o nível não percebem. Não vou citar Régio ou Nobre senão ainda me perguntam se eles são presidentes da Firestone ou da Goodyear. E eu de pneus não percebo nada.» É que Pinto da Costa é um exímio cultor da ironia e é através dela que se manifesta a sua veia humorística. Mas vamos fazer uma pausa para saborearmos com vagar as manobras literárias pintocostanianas. Retomaremos esta condução defensiva dentro de instantes com a análise do humor literário do presidente do FCP.

 

 

Estávamos, então, a apelar ao lançamento da carreira literária de Pinto da Costa, salientando as características que apontam desde já para um grande escritor. Para mim, o mais significativo nesta matéria é a veia humorística de Pinto da Costa. Apesar de na literatura portuguesa serem muitos os escritores que cultivam o ludismo e a ironia, poucos têm conseguido atingir o nível de Jorge Nuno, sobretudo se pensarmos que é uma espécie de autor “em antestreia”. Os exemplos multiplicam-se: quando lhe perguntam do que mais gosta em Lisboa, não resiste a responder «a zona das partidas no aeroporto». Vou fazer uma pausa para que todos possam soltar essa gargalhada contida. Já está? Então, atentem na próxima frase: «Qual o problema do Benfica? Se dissesse, ainda o resolviam!» Ou esta outra, para mim, a melhor tirada humorística de Jorge Nuno: «Ganho mais ou menos dez mil euros por mês.» Aposto que neste momento estão os ouvintes todos agarrados à barriga. Outros exemplos, de uma ironia mais fina e mais magoada: «Não sei o que é o poder; se o tivesse, talvez algumas pessoas não fizessem o que fazem.» ou «Os quilómetros de fita das minhas chamadas gravadas talvez dêem para ir à Luz e voltar!». Mas não se pense que este apurado sentido de humor aniquila o lado amoroso do dirigente desportivo. Pinto da Costa é, sem dúvida, um poeta; ele sabe que uma palavra encerra múltiplos sentidos. Se lhe perguntam se é um mafioso rodeado por seguranças, Jorge Nuno esclarece que quando vai a qualquer lado a única segurança que tem é a mulher. Aqui, a palavra segurança tem um duplo sentido: por um lado, significa que a mulher o acompanha, vai literalmente com ele; por outro, é ela o seu porto de abrigo, o seu refúgio amoroso. Mas nada disto espanta. Afinal, Pinto da Costa tem as melhores referências e influências literárias: Nobre, Camilo e Régio. Por acaso, todos escritores ligados ao norte. De Nobre creio que Jorge Nuno herdou, para além da condição de menino fadado desde o berço para ser princípe, o talento para recuperar as vozes do povo; de Camilo herdou, para além dos nomes dos filhos, um Jorge, outro Nuno, e de um incomparável conhecimento da linguagem, a capacidade de exprimir o génio sentimental lusitano; de Régio, para além de certos apontamentos dramáticos, a lucidez de saber por onde não vai. E assim se pode compreender que estão lançadas as bases da carreira literária de Pinto da Costa, tão afastado está ele do «penso eu de que» do passado. Resta-me apenas sugerir, antes de se lançar nesta empresa e para melhor a promover, a organização de saraus de poesia em pleno relvado do Estádio do Dragão, com Pinto da Costa declamando o regiano Cântico Negro. De momento, não me ocorre melhor programa literário para esta primavera pós-campeonato.

 

04
Mai08

Condução Defensiva - Diagram

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Hoje começo esta Condução Defensiva pedindo desculpa aos ouvintes por ter negligenciado aquele que me parece ser um dos mais relevantes galardões literários do mundo. Eu ainda hoje estou para perceber como é que só passado um mês e trinta anos me dei conta dele e, por esta falha, apresento as minhas sinceras desculpas. É que, face a este prémio, é caso para exclamar: qual Pulitzer qual quê! Ou perguntar: para quê o Nobel se existe o Diagram? Mais precisamente, o Bookseller/Diagram Prize for Oddest Title of the Year ou, em português, o prémio Bookseller/Diagram para o Título Mais Estranho do Ano. Quem é responsável há mais de três décadas pelo concurso é a Bookseller. Este ano, a decisão coube ao público, que pôde votar no site da revista britânica. Parecia complicado manter o nível atingido o ano passado, com a atribuição do prémio à obra Pessoas que não sabem que estão mortas: como elas se prendem a terceiros desavisados e o que fazer a esse respeito – título longamente poético, capaz de provocar, logo numa primeira leitura, as mais entusiásticas dissertações exegéticas. Mas para quê revisitar o passado da densa história dos títulos literários se podemos mergulhar com profundidade nas obras a concurso este ano? Vou citar os títulos integrados na selecta lista dos finalistas: Fui Torturado pela Rainha Pigmeia do Amor; Como Escrever um Livro Sobre Como Escrever; As Mulheres São Humanas? E Outros Diálogos Internacionais; A Resolução dos Problemas do Queijo; Se Quer o Final (no sentido de encerramento) da sua Relação, Comece pelas suas Pernas; Pessoas que Importam em Southend e Além: do Rei Canute ao Doutor Feelgood. Como podem imaginar, a escolha foi árdua, exigente e muito complicada. Não é do pé para a mão que se elege o sucessor de Quão verdes eram os nazis?, obra dedicada às políticas ambientais do Terceiro Reich; ou A mulher tatuada da montanha e caixas de colheres do Daguistão; ou ainda Os Carrinhos de Supermercado Perdidos no Leste da América do Norte: um Guia para Identificação de Campo. Mas o público tanto se esforçou que acabou mesmo por escolher... Estão preparados? Vou abrir o envelope. O Diagram deste ano vai para... Se Quer o Final (no sentido de encerramento) da sua Relação, Comece pelas suas Pernas, o manual de auto-ajuda escrito por Big Boom que arrecadou 30% dos votos. O segundo lugar foi para Fui Torturado pela Rainha Pigmeia do Amor e o terceiro para A Resolução dos Problemas do Queijo. Foi um reconhecimento renhido, este do melhor título bizarro do ano; agora que já passou não sei como esperar pela 31ª edição. Talvez lendo estes livros, editados por este mundo fora; ou melhor: revisitando o primeiro volume de poesia de Jorge de Sousa Braga, com um dos mais maravilhosos títulos da história da literatura portuguesa: De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu. Aposto que a Bookseller nunca deu conta disto...

27
Abr08

Condução Defensiva - Casais Sólidos

condutoras de domingo

Hoje não vou falar de livros. É que, na semana passada, não só se assinalou o Dia Mundial do Livro, e para quê estar a chover sobre o molhado?, como se comemorou o Dia da Terra. Uma das muitas coisas referidas foi aquilo que estou cansada de afirmar: há muita árvore a sofrer por causa de livros que não merecem ser publicados. Uma tonelada deles obriga ao sacrifício de três toneladas de madeira! Façam as contas... Por isso, arranjei finalmente um espacinho para me debruçar sobre uma realidade que me tem incomodado: os “casais sólidos”. O que me faz confusão não é a soma feliz de Anna Westerlund a Pedro Lima ou de Tom Cruise a Katie Holmes, exemplos recorrentes de “casais sólidos”; o que me chateia é este hábito da imprensa nacional (sobretudo a que se dedica com esmero aos casais sólidos) conjugar aleatoriamente adjectivos e substantivos e de assim os transformar, também a eles, pobres palavras, em uniões sólidas. Ora bem, eu leio a expressão “casal sólido” e a imagem que me vem de imediato à cabeça é a de um paralelipípedo. Disso ou de um daqueles lugarejos com terrenos e uma casa, muito comuns antigamente. Mas nada de Tom Cruises e Katie Holmes de mãos dadas, nada de amores sinceros e perfeitos. Eu ouço “casal sólido” e, pronto, a minha mente fica presa a um tijolo com 6 faces, 8 vértices e 12 arestas, firme, robusto, maciço. É certo que Cruise e Holmes, ou qualquer outro par capaz de constituir um “casal sólido”, raramente apresentam falta de firmeza; aquilo é sem dúvida gente resistente. Contudo, não é a isso que se referem as revistas que se congratulam por existirem “casais sólidos”. Aqueles casais são sólidos por terem uma relação consistente como a massa do Bolo Rei. A mim, parece-me precipitado e incorrecto que sejam assim classificados. Por baixo da fotografia de Pitt e Jolie ou Cruise e Holmes devia aparecer a legenda “casal feliz” ou “casal que ainda se atura”. Isso do “casal sólido” chega a ser injusto para os “casais felizes” que, naquele momento, podem estar a atravessar, em diversos campos, uma fase mais líquida ou gasosa. Razão suficiente para avançar com uma proposta de suspensão do uso da expressão “casal sólido” nestas situações. Até porque dá-me ideia que, a existir um “casal sólido” neste mundo, só mesmo o de Barbie e Ken, que, como toda a gente sabe, são bonecos feitos de plástico resistente, não tóxico e imune a alterações de estado.

 

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.

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