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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Condutoras de Domingo

20
Abr08

Tão Mau Que é Bom - Blackout

condutoras de domingo

Eu detesto ficar com as más notícias. Não tenho jeito para isto. Mas tem de ser. Por isso… aqui vai. Calou-se esta semana uma das vozes maiores da nação. Não, não morreu nenhum poeta ilustre. Simone de Oliveira não emudeceu de vez. A área do comentário político continua de boa saúde, apesar da fuga de Coelho, ainda há Marcelo Rebelo de Sousa, Lobo Xavier e Fátima Campos Ferreira. A quem ninguém pediu opinião, mas que insiste em dá-la. A voz que se calou também não era uma voz de comando. Sócrates continua a dizer, aqui e ali, frases soltas, nos vários idiomas que domina. Cavaco Silva continua a dizer pequenas mentiras sobre a Madeira, Alberto João continua a dizer grandes verdades sobre o bando de loucos que enchem o parlamento... O blackout desta vez atingiu outras áreas de actividade. Não foi no futebol. Chalana continua a falar, para infelicidade de toda a nação benfiquista, Paulo Bento continua a prestar declarações, para a felicidade de todos os que gostam de ouvir música espanhola, e Pinto da Costa não se cala. Com a quantidade de vezes que lembrou a justiça divina, até já o estamos a imaginar num palanque da Igreja Maná, de braços erguidos para o céu, gritando que Reinaldo Teles é o seu pastor. O blackout chegou, isso sim, ao mundo da moda. Ou ao universo dos namoros em geral e casos amorosos em particular. Chegou pela boca de Diana Chaves. É verdade. Ela não fala mais. Acabou-se. Como é que vai ser daqui para a frente? Não sei e temo imaginar. Como pode o país progredir sem as sábias palavras de Diana? Quem vai ocupar os espaços de debate na televisão, de crónicas no jornal, de opinião na rádio? Quem vai liderar as manifestações cívicas, quem vai representar os cidadãos insatisfeitos, quem vai ser o grande pensador nacional do século XXI? Depois de José Gil, esperávamos que Diana publicasse “Portugal hoje, o medo de exibir”. Abre-se assim uma crise social sem precedentes. E as consequências estão já ao virar da esquina. Vamos assistir a catástrofes como: Diana na inauguração da Multiópticas do Barreiro sem dizer uma palavra, Diana calada nos catálogos da Seaside, Diana em silêncio na estreia de mais um filme de adolescentes, Diana sem prestar declarações na festa da espuma, Diana no Carrefour a recusar-se a dizer à senhora da caixa se tem Cartão Família, Diana tentando explicar por gestos que quer uma bica, Diana sem insultar os homens das obras que querem fazer-lhe um vestidinho de cuspo… Vai ser duro. Para todos. Ver Diana Chaves, essa estrela maior da ficção nacional, brilhar num género mal tratado por cá: o cinema mudo.

 

13
Abr08

Tão Mau Que é Bom - A Esfregona

condutoras de domingo
Se tiverem de pensar em qual foi a maior invenção para as mulheres no último século, o que é que vos vem à cabeça? A pílula? O soutien sem alças? O consultório da Maria? Os programas apresentados pela Ana Marques? Não, nada disso. A direcção de informação da SIC não teve dúvidas e optou por assinalar com pompa e circunstância o aniversário dessa grande invenção que é... a esfregona. Ui, a maluqueira que foi a esfregona no que diz respeito à emancipação feminina. É a Simone Bouvoir dos utensílios de limpeza. Há 50 anos atrás, o espanhol Emílio Bellvis Montesano resolveu prender umas farripas a um cabo de plástico e desde aí o mundo não foi mais o mesmo. A SIC enalteceu o facto das mulheres já não terem de esfregar o chão de gatas e entrevistou diversas idosas sobre como a esfregona tinha mudado a sua vida. Bom, nem queremos pensar na algazarra que vai ser naquela redacção quando o aspirador fizer anos. E quando chegar a vez da Bimby, então, vão querer proclamar feriado nacional. Uma coisa é verdade: a esfregona é um símbolo de rebeldia feminina que se encontra em qualquer lar. É que nem todas as mulheres têm em casa um forno a lenha e uma pá para se sentirem a padeira de Aljubarrota. E não é qualquer uma que tem a estrutura óssea mais adequada para ficar bem com um corte de cabelo ao estilo Joana D’Arc. Já para não falar que nem todas as mulheres podem andar por aí a queimar soutiens, que os almofadados com armação estão pela hora da morte. A esfregona é democrática, qualquer uma de nós pode pegar na Vileda e passar um Sonasol Verde para pôr o feminismo a brilhar.
30
Mar08

Tão Mau Que é Bom - A Saudade

condutoras de domingo
Nós sabemos que a realidade portuguesa é bem diferente dos filmes. Mesmo dos portugueses! Sabemos que o senhor prior lá da paróquia nunca andaria enrolado com a Soraia Chaves – quanto mais não seja porque não a conhece. Sabemos que os gangs da Zona J não usam alcunhas mariquinhas como “Pantera”. Sabemos que o Nicolau Breyner não é corrupto nem fuma charuto. Sabemos que uma “Viagem ao Princípio do Mundo” demora um bocadinho menos que três horas e meia. Mesmo a pé. Enfim, estamos preparados para esse tremendo contraste entre o mundo real e a ficção. Mas tudo o que é demais deita por fora. Não custava nada dar um bocadinho de acção aos casos policiais da nossa praça. Vamos ao exemplo mais comum: o foragido. Nos filmes (ou em novelas da TVI chamadas “A Outra”) são pessoas que fazem operações plásticas, falsificam documentos e mudam de nome. Malta que se refugia em tocas escuras, estilo Saddam Hussein, e que só sai à rua com gabardina até aos pés e óculos escuros, tipo Inspector Gadget. E como é óbvio essas saídas arrojadas só têm lugar quando há assuntos urgentes para resolver. Como ir ao hospital retirar uma bala alojada no peito ou ir ao funeral do padrinho. A coisa muda de figura quando falamos da vida nacional. Esta semana um recluso evadido em 2006 da prisão de Coimbra foi apanhado. No jornal surge como Alfredo – nome fictício. Por aqui se vê a falta de categoria de tudo isto. Se fosse um fugitivo de Alcatraz chamava-se pelo menos Clint Eastwood. Como é ali do Estabelecimento Prisional de Coimbra, chama-se Alfredo. Adiante. Depois de quase 2 anos de fuga bem sucedida, este homem, condenado a 12 anos de prisão por burla e contrafacção, foi apanhado pela polícia. E perguntam vocês: onde se deu a detenção? Numa das movimentadas linhas do metro de Nova York? No Rio de Janeiro, junto à residência de Fátima Felgueiras? Numa sucursal dum banco na Suiça, a tomar conta do offshore? Nada disso. Foi num sítio também ele cheio de glamour: Pocariça, a poucos kilómetros de Cantanhede. E porque é que o Alfredo se deslocou até lá? Provavelmente para receber uma mala cheia de dinheiro, ou uma nova máquina para imprimir notas falsas. Ou, pronto, um kilo de haxixe que fosse. Pois. Não. Ele fez um longo caminho até lá porque era… Domingo de Páscoa e quis visitar a família. Quando se viu cercado, não ofereceu qualquer resistência e a polícia não teve que recorrer à força. É natural. Ele provavelmente já tinha o que queria: um Kinder Gran Surpresa, daqueles que trazem peluches e tudo. E como a operação foi pacífica se calhar ainda deu tempo para levar umas amêndoas de licor para os amiguinhos da prisão. 
16
Mar08

Tão Mau Que é Bom - Vila Faia

condutoras de domingo
Quando dona Simone de Oliveira, do alto dos seus 50 anos de carreira - e da sua mise de rolos estilo Coliseu – parou para chamar nomes ao director de programas da RTP, por causa do horário de transmissão da nova novela da casa, deveria ter parado também para tentar compreender que não é fácil arranjar espaço na grelha para um programa de ficção científica. Sim, porque é de ficção científica que trata Vila Faia. Se não, que de outra forma se explica o facto de a prostituta protagonista ter cartão Medis e ir a uma clínica de betinhos? Não é fácil para um director escolher uma hora para este tipo de novelas fantasistas, pelo que os fins de tarde de fim-de-semana até parecem uma boa opção: é geralmente aquela hora que dão os filmes com meteoritos em rota de colisão com a terra, dinossauros que voltam ao planeta, homens alados que salvam crianças... e outras coisas que não existem, como prostitutas com cartão Medis. Os guionistas da série dizem que tiveram uma grande trabalheira a actualizar a novela, pois o país mudou muito em 26 anos e há coisas na Vila Faia de então que não fazem sentido nenhum hoje em dia. E nem sequer estavam a falar das saias amarelas com folhos da Manuela Marle... ou da própria Manuela Marle. Aparentemente, o que lhes deve ter feito mais confusão foi esse conceito, totalmente anos 80, de prostitutas de rua, exploradas e mal pagas, sem direito a IRS, quanto mais a segurança social e assistência médica. Vai daí, pegaram na personagem Mariette e tanta foi a gana de actualização... que só pararam no futuro. Um futuro onde as meretrizes e mulheres de má vida não têm clientes mas são elas próprias clientes, de serviços chiques. Cá para mim, depois de termos descoberto que a prostituta protagonista – adoro dizer isto: prostituta protagonista - frequenta clínicas médicas em que uma consulta custa mais do que um fim-de-semana inteiro a aviar marinheiros acabados de atracar, vamos perceber, nos próximos episódios, que ela trabalha num escritório modernaço, faz body pumpin no Holmes Place, tem PPR e conta poupança habitação, decorou a casa com Feng Shui e adoooora os livros do Miguel Sousa Tavares! Isso é que totalmente actual! O que não é, certamente, é o nosso tempo presente. Porque se fosse, a Inês Castel-Branco falava brasileiro, tinha nome de fruta e vivia uma affair com um Godunha árbitro... ou, então, simplesmente, trocava os “vês” pelos “bês”, namorava um dirigente desportivo e transformava-se numa pop star. Mas, para histórias de putas que viram princesas já chega o Pretty in Pink e a Júlia Roberts, tudo o resto depois disso... soa a falso.
10
Fev08

Tão Mau Que é Bom - Anúncios SIC Notícias

condutoras de domingo
Tenho de falar duma coisa que me atormenta mais e mais a cada dia que passa. Os anúncios da SIC Notícias. Confesso que já andava com aquele do Toda a Verdade atravessado há uns tempos. Sim, aquele em que a Clara de Sousa diz, em tom solene: “Este é o Martin, não o deixam falar, este é Kinuyo, viveu o inferno, esta é a Yola, vítima de injustiça”. Mas pronto, como esta gente existe mesmo, apesar de não se chamar assim nem fazer ideia que está na TV portuguesa, evitei comentar o assunto. Agora, as coisas mudam de figura quando: em vez do Martin temos o Mário, que deixam falar e não é pouco, enquanto apresenta o boletim meteorológico. Em vez do Kinuyo temos o Pedro, que não viveu o inferno mas “é a irreverência e traz a notícia certa quando a noite acaba e a manhã começa”, e no lugar duma Yola temos a Ana, que não é vítima de injustiça mas apresentada como “o rosto da actualidade, que dá voz à pergunta”. Dizem que “os três fazem noites únicas”. Eu prefiro não saber detalhes.A SIC Notícias quer que tratemos Mário Crespo, Pedro Mourinho e Ana Lourenço como nossos amigos de infância, já percebi. E resulta. Ao fim de três anúncios destes sentimo-nos capazes de dar um palmadão nas costas do Mário da próxima vez que o virmos no supermercado. É que dizem assim: “com ele as notícias ganham forma e as faces revelam-se”. A utilização deste ícone da estação não fica por aqui! Quando achamos que já vimos tudo, eis que Jel e o seu irmão irrompem pelo Jornal das 9 cantando “Mário, Mário, Mário Crespo”. E o que faz o apresentador? Desarma-os com a pergunta “com esses óculos vês alguma coisa?”. Brilhante. Achávamos que a verve dele se ficava pelos acontecimentos históricos junto da neblina ou nevoeiro matinal, mas este anúncio vem-nos mostrar o prometido. Outra face do Sr. Crespo. A estação está apostada em criar proximidade com o espectador. Mas o esquema vai sair-lhes furado. Basta uma análise muito superficial para perceber porquê. Para anunciar o Frente-a-Frente têm uma cantora lírica e um metaleiro aos gritos um com o outro. Num estilo gutural, que agrada decerto a Mário Laginha mas que afugenta os restantes portugueses. Depois temos um pseudo Michael Jackson a sapatear, ou melhor, a ter um ataque esquizofrénico com direito a gritos de dor e tudo. E isto nem sequer anuncia o programa Centro de Saúde, mas sim o Imagens de Marca. Lá nisso, acertaram. Tão cedo não esquecerei estas imagens.


Quando achava que já tinha visto tudo, surgem Dias Ferreira, Guilherme Aguiar e Fernando Seara, com camisolas dos respectivos clubes, justinhas à pança, a tentar jogar futebol. E tentar é o verbo certo, porque nem com horas de edição se vê algum deles dar mais de 2 toques seguidos. É como se tivessem voltado aos tempos da escola, directamente para o recreio. A infantilização estende-se, de resto, a toda a grelha. A apresentar o Jornal de Economia temos construções em Lego e crianças a dizer que querem comprar helicópteros. Para o Eixo do Mal temos o já clássico western spaghetti, em que Clara Ferreira Alves tenta atingir mortalmente Daniel Olvieira, e José Júdice troca olhares ameaçadores com Luís Pedro Nunes, numa estética marcadamente Lucky Luke.


A representar a estação nos jogos de tabuleiro temos Martim Cabral e Nuno Rogeiro, num desafio de Risco. O pretexto? Anunciar o Sociedade das Nações. Mas pelo meio Rogeiro sempre pode negociar as cartas de objectivo e, num lançamento de dados, conquistar a Sibéria. Alunos mais aplicados são Jorge Coelho, Pacheco Pereira, Lobo Xavier e Carlos Andrade, que apesar de muito conversadores e agitados, já aprenderam a fazer um quadrado. “Bem falar, melhor dizer” é o slogan da Quadratura do Círculo. Eu não diria melhor. Mas em termos de slogans, ganha este: “para o bem e para o mal, falar no futuro é falar global”. Que bonita poesia conseguiram estes meninos. Os mesmos que, no anúncio, põem Balsemão a falar com voz de robot. Como se tivesse saído dum jogo da PS3. Júdice e Barreto também não resistem às actividades lúdicas. E já sabem as 3 regras do jogo: saber ponderar, saber ouvir, saber conversar. Muito bem, não têm faltado às aulas de Formação Cívica! Isto para já não falar do Mário Augusto, esse coração de manteiga. Que aparece no 35mm de “lágrima no canto do olho”, qual Bonga, a assistir aos mais melosos beijos do cinema, incluindo o do Rei Leão e a Branca de Neve…


É nesse momento que confundo a SIC Notícias com o Canal Panda. E mais tarde, pergunto-me se não será o Baby TV. Quando vejo o anúncio do Opinião Pública, em que 2 marionetas conversam, num dialecto incompreensível. Pelo menos para mim. Para quem tem 18 meses se calhar faz todo o sentido. É como aquele anúncio em que uma mulher retoca o baton, enquanto uma data de gente com máscaras brancas convive alegremente. Máscaras daquelas que só as vítimas de maus tratos e violência doméstica usam, quando vão desabafar nos programas da Júlia Pinheiro. “Só nós conhecemos a cara por detrás da notícia”, dizem eles. Para anunciar o Caras Notícias, claro. Finalmente um anúncio com nexo. É que Catarinas Tallons e Margaridas Marantes é o que não falta nesse programa. E elas bem precisam de máscara.
Hoje, mais do que nunca, lamento que a rádio não tenha imagem. Mas vejam a SIC Notícias nos próximos dias. Vão perceber que o verdadeiro “furo” jornalístico está nos intervalos. E que ao pé destas obras de arte, as eleições americanas ou uma catástrofe natural na Ásia não têm importância nenhuma.
21
Out07

Tão Mau que é Bom - Teresa & Elsa

condutoras de domingo
O que têm em comum Teresa Guilherme e Elsa Raposo? Muita coisa até, se virmos bem… Aquele tom loiro pérola nº 7 da L’Oréal, o currículo com cerca de 170 ex-namorados, todos com menos de 20 anos (actualmente), e a apresentação de programas de cariz intimo, envolvendo sex appeal ou escovas de dentes. Mas agora há uma coisa que as aproxima mais do que qualquer outra: o facto de terem passado largamente a fasquia dos quarenta, apresentando todos os sintomas de demência que esse processo implica. O esquecimento, a repetição excessiva, o volume exagerado da voz… Mas juntam-lhes uma agravante: a compulsão para produzirem coisas e entrarem nas suas próprias produções. Como se não fosse já suficientemente mau Teresa Guilherme ser protagonista na sua novela “Vingança” e trocar beijos repugnantes com outro idoso, Rui Mendes, agora vai ser, curiosamente noutra das suas produções, mãe de Floribella. Mas já lá vamos. Porque quando falamos em mães fora de prazo, um só nome nos vem à cabeça. Aliás, dois: Elsa Raposo. Diz a manchete do 24Horas que “Elsa arrasa em catálogo de … malhas”. Malhas, minha amiga? Querem coisa mais decadente que esta? Ainda por cima a sessão fotográfica era para o catálogo da Ruga, empresa de confecções de Barcelos! Depois disto só falta fazer uma passagem de modelos no Lar de Idosos de Nossa Sra. do Cabo e deixar de vez os eventos sociais para se dedicar aos convívios na paróquia, entre um e outro desafio de canasta. Mas Elsa é, como já referimos, produtora. E produz o quê? Além de desgostos amorosos e gravidezes em catadupa, produziu este catálogo de moda, numa fábrica metalúrgica em Pêro Pinheiro. Uma árdua tarefa, segundo diz: “não foi fácil escolher um cenário para uma colecção de malhas confortáveis, muito macias e com bastante textura. Pensei em contentores e ferros (…), o ferro é rude e cola bem a contrastar com a macieza das lãs”. Brilhante associação de ideias, Elsa! Folgamos em saber que a sua provecta idade ainda não lhe roubou todas as capacidades. Teresa Guilherme mantém igualmente as suas qualidades. Embora só lhe fosse conhecida uma: a de surpreender. E nem sempre pela positiva. Voltou a fazê-lo uma vez mais, surgindo no último episódio de Floribella como sua mãe. Nem a protagonista sabia, confessando que teve um ataque de nervos, ficou enjoada e sem conseguir parar de rir. Desta vez, compreendemos perfeitamente Luciana Abreu. Teresa disse que sempre gostou muito de Luci, conseguindo assim inventar uma alcunha tão má que destrona Flor. Diz-se até que Teresa, depois da maquilhagem e do guarda-roupa, fica muito parecida com Floribella. O que, convenhamos, é bem mais assustador e menos apropriado do que posar com casaquinhos de malha.
14
Out07

Tão Mau Que É Bom - Clara Pinto Correia RAP

condutoras de domingo

O conflito de gerações existe já há muito tempo e já todos nós sentimos os seus sinais numa altura ou noutra. Normalmente, vêm em forma de um “esta juventude está perdida” ou de um “isto agora é só modernices” ou mesmo “no meu tempo é que era”. Pequenos desabafos e resmunguices.
Agora imaginem uma destas resmunguices ao longo de uma hora. Sempre a rimar. Em rap. E pela voz desse vulto do hip hop nacional que é... Clara Pinto Correia. O resultado final está no Jardim de Inverno do São Luiz e chama-se “O Som do Rap”. Do espectáculo faz também parte um Sócrates Napoleão. O nome sugere o de um animal de estimação dividido entre dois donos que não conseguiram atingir o consenso num só nome, mas desenganem-se. Sócrates Napoleão é músico, uma espécie de Cateano Veloso dos pobres. E é razoavelmente giro e exótico. O que vamos a ver, explica muita coisa. Até porque o homem nem rappa. Esse ritual, honra lhe seja feita, cabe apenas a Clara Pinto Correia, também autora da letra que discorre durante uma hora. O rap versa sobre o tal conflito de gerações. Sobre todo um mundo que os mais pequenitos desconhecem, encafuados que estão em modernices como a Internet ou a Dica da Semana. Há que lhes abrir os olhos. E para chegar aos olhos fazemos um atalho pelos ouvidos, também eles confusos com versos deste calibre:
Como não é possível recolher sons nos espectáculos, vai mesmo assim:


“Só frequentas os bares
Que não tiram a gravata
O teu piano não bebe
A tua pila não fuma
Tu não inalaste haxixe
Numa banheira de espuma
Nem disseste que se lixe
Tens jantes de liga leve
O GPS é para Telheiras
Nunca provaste as alheiras
Da velha da Casamata”


Ainda estamos confusas com a imagem mental de uma pila a fumar um cigarrinho quando levamos com aquela que é uma rima que nem o Quim Barreiros teria coragem de tentar: “Telheiras” e “alheiras”. Subúrbios e enchidos, aqui está a combinação que faltava à música portuguesa. E finalmente alguém usa o rap para denunciar que as novas gerações não andam a comer a carne de aves envolta em tripa e banha que lhes compete. Devem andar todos só a enfardar os Suissinhos que a Floribella lhes impinge nos anúncios, os pulhas!
Os Da Weasel deviam era aprender umas coisas com a Clara. E experimentar um... “olá nina, quero cuidar de ti/ ir ao Cacém comer moelas e pipi”. Hum?
Este... “espectáculo”, digamos assim, tema duração de uma hora, como dissemos.
E é uma hora onde a dúvida que mais nos assola o espírito é, exactamente, “está a falar do quê”??

07
Out07

Tão Mau Que é Bom - Casamento de Sonho

condutoras de domingo

Fala-se muito em entretenimento de massas mas só esta semana estreou um verdadeiro programa massificado. Ao pé disto, o Big Brother era concurso para meia dúzia de indivíduos. “Cantando e Dançando por um Casamento de Sonho” é o primeiro produto televisivo para multidões. Esqueceu-se de vez a qualidade e apostou-se na quantidade. Já não era sem tempo! A começar pelo título: 8 palavras. É o único que não cabe em nenhuma grelha de programação. Só cabe mesmo na cabeça de Moniz, que o acha dotado de “grande beleza estética”. A mim parece-me tão harmonioso como um… cozido à portuguesa. Mas com mais ingredientes ainda. É fácil e rápido: mistura-se um bocadinho de “Dança Comigo” com “Quinta das Celebridades”, acrescenta-se “Canta Por Mim” QB, bate-se muito bem (de preferência com a cabeça, numa parede) e derrama-se “Primeira Companhia” por cima. Não vale a pena mexer até ficar uma massa homogénea porque isso nunca vai acontecer. Basta dizer que o molho inclui Olavo Bilac e Carla Andrino. Não pode deixar de ser indigesto. Escusado será dizer que todos os produtos usados na confecção são de marca branca, estando alguns até já fora de prazo. Não, D. Rosa Lobato Faria, não me referia a si. Nunca! Ainda no campo das metáforas culinárias, o director da estação diz que “os programas são como os ovos, só depois de abertos sabemos se estão bons”. Uma dica: não é preciso ser-se o chefe Silva para ver que estamos perante uma receita gourmet de … salmonelas.
Existem mais intervenientes neste programa do que nas Noivas de Santo António: catorze casais, catorze padrinhos, quatro jurados, três sogras e … uma Júlia Pinheiro, que faz as vezes de um coro paroquial inteiro, mas é o que, neste panorama, mais se aproxima de um padre. Um padre pouco convencional, há que dizê-lo. Vamos ouvir uma das suas homilias:



Temos de reconhecer que os acólitos também não ajudam grande coisa nesta paróquia. A rapariga não tem bem a certeza de ter uma banda, como há-de saber se quer casar? Quanto ao padrinho, ficou-se pelo Génesis, nunca passou daquela parte de amar o próximo. Já de Júlia, não é preciso dizer nada. É normal que alguém que passou os últimos anos em clausura a falar com um burro chamado Pavarotti e uma meia chamada Sr. Pires sofra danos irreversíveis. Ao ponto de resumir a estreia do programa desta forma: “houve muito amor, muita lágrima, muita beijoca e muita ranhoca”. Palavra do Senhor.

28
Set07

Tão Mau que é Bom - Rótulos

condutoras de domingo
Não há nada mais intrigante para um leitor compulsivo do que descobrir que ainda não experimentou todos os géneros literários. No fundo, um leitor compulsivo é apenas a categoria mais pura dentro da sub-categoria dos seres humanos leitores com comportamentos aditivos. Porque há vários tipos de leitores compulsivos: há, por exemplo, os viciados em sexo, que vivem atormentados pelo desejo permanente de ler o Kama Sutra [ou os folhetos informativos dos preservativos]; há também os viciados em substâncias psicotrópicas, que desesperam quando se esquecem que, para conseguirem ler em condições as bulas das drogas, têm que ler primeiro e drogarem-se só depois. E há ainda mais um exemplo que tenho que acrescentar, o dos leitores compulsivos viciados em chocolate. É que não há um único leitor compulsivo viciado em chocolate que defenda que o ritual de ingestão de uma tablete fica completo sem o acompanhamento da leitura do rótulo da guloseima consumida. Reparem bem: o rótulo.
Como leitora compulsiva viciada em chocolate em fase de franca recuperação por desenvolvimento de uma alergia alimentar – é difícil, mas é a sub-sub-categoria em que me enquadro –, eu já tinha tido o prazer de ler rótulos e, confesso, rótulos de vários bens de consumo: das etiquetas de roupa às instruções do rádio a pilhas, passando, como é evidente, pelos rótulos dos shampôos, dos cremes hidratantes e dos alimentos. Li isso tudo, mas nunca me tinha apercebido de que este processo de leitura de rótulos implica uma apurada técnica de exegese.
Até ao dia em que decidi trazer de uma loja de produtos naturais uma revista gratuita sobre comportamentos saudáveis. Nesse dia, eu entrei em contacto com uma nova realidade: os workshops de leitura de rótulos. São aulas de cerca de 3 horas que se repetem ao longo de várias semanas e que têm como objectivo principal alertar não só para “a importância deste tema”, como também para “a generalizada ausência de conhecimentos do cidadão comum sobre a interpretação da rotulagem dos alimentos”.
Estes workshops estão claramente acima de um vulgar workshop de dança oriental ou de um mais que concorrido workshop de escrita criativa[, incluindo aqueles que obrigam à frequência de 2/3 das aulas sob pena de não devolverem aos alunos o valor da inscrição.] Mesmo um aliciante clube de leitura ao Sábado à noite fica muito aquém de um workshop de leitura de rótulos. E isto porque, num workshop de leitura de rótulos com o preço médio de 20 euros, há merenda de boas-vindas para os futuros leitores, há professores doutores que dão pelo nome de Polybio e que alertam para o perigo da ausência de rótulo e há acesas discussões em torno da legislação da rotulagem nutricional. Tudo isto e mais: quem completa o workshop, recebe uma mini-telelupa a cores, ideal para ler rótulos, e leva para casa um certificado – um CER-TI-FI-CA-DO que se emoldura mais facilmente que qualquer canudo da Universidade de Lisboa.
Infelizmente, nada disto é para mim; eu não estou preparada para a integração na sub-categoria privilegiada dos leitores compulsivos que descobriram a importância do papel dos rótulos no significado textual. Na verdade, eu ainda perco tempo a debater-me semanalmente com a leitura exegética da Dica da Semana.

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.

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