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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Condutoras de Domingo

06
Abr08

Sinais de Luzes - 6 de Abril

condutoras de domingo
Mínimos
Para a agência de viagens Destination on Location, que tem o programa de férias mais hediondo de sempre. Quando achávamos que nada podia bater Salou e Lorett del Mar no que respeita a turismo do absurdo, eis que deparamos com isto. Ao pé da oferta turística de que vamos falar, levar cheerleaders russas e o Emplastro para as discotecas espanholas até parece normal. Esta agência americana oferece aos clientes a oportunidade de viver 4 dias como as protagonistas do Sexo e a Cidade. Oferece, quer dizer, por 15 mil euros. E então como se passam esses quatro dias? Imaginámos que fosse em quartos de hotel, suites de luxo, bares de strip ou, pelo menos, um bordel de Nova York. Pois… não. Viver como o quarteto da série significa, para estes senhores, comprar roupa e sapatos nas melhores lojas de Manhattan, ir a spas, andar de limusine e jantar em restaurantes da moda, onde todos tentam arranjar lugar. Obrigadinha. Para isso, toda a gente sabe, basta usar o truque de marcar em nome de Júlia Roberts ou Cameron Diaz. Arranja-se sempre uma mesinha. Mas o programa é personalizável, conforme a personagem favorita. Os fãs de Charlotte vão a galerias de arte, as de Samantha visitam a sex shop do Soho, as de Miranda fazem jogging no Central PArk e as de Carrie vão a lojas de estilistas. Grande coisa! Isto é um meio pacote. Não oferece a parte do sexo, só a da cidade. Aquilo que as fãs de Charlotte, Samantha, Miranda e Carrie admiram nelas é o sexo desenfreado. Com homens, mulheres, travestis, sozinhos ou em grupo. Se é para ir comprar sapatos e ver exposições ficamos ali pela Gulbenkian e pelo Corte Inglês. E sempre poupamos os 15 mil euros.

Médios
Para a Depuralina. Finalmente um suplemento alimentar que cumpre o que promete na publicidade. Faz emagrecer. Ao contrário dos tratamentos Body Slim, dos batidos Herbalife, da seiva natural, dos comprimidos ecodiet, das bandas gástricas da Margarida Martins ou dos jejuns da Mónica Sintra, Depuralina resolve. É uma espécie de Liedson dos produtos dietéticos. E faz com que as pessoas fiquem tão subnutridas como o avançado sportinguista. Todos aqueles obstáculos que se levantam quando se faz dieta, deixam de existir com Depuralina. Não há ataques de fome nocturnos, não há episódios de compulsão enquanto se vêem comédias românticas, não há exageros gastronómicos em casamentos e aniversários. Não há nada disso. Porque as pessoas estão sempre na cama, num hospital. Não têm de ler os rótulos nem contar calorias, porque os saquinhos de soro são sempre light. Em vez de dieta rigorosa, fazem dieta intravenosa, que é muito mais eficaz. E em vez de gastarem dinheiro em modelos e actrizes para anunciar os benefícios da Depuralina, investem em cidadãs anónimas que estão internadas no Curry Cabral. O que dá muito mais realismo à coisa. E o melhor é que elas, além de ficarem com uma cintura de fazer inveja, podem gabar-se de ter um choque anafilático e uma toxicidade do fígado acima do normal. Vão ficar todas a morrer de inveja. De que vale caber no bikini se temos um fígado vulgar?

Máximos
Para o Ministério da Defesa, o primeiro a encontrar uma fonte de receitas verdadeiramente rentável. Para quê esperar por impostos e contribuições, quando pode enveredar-se pelo fabuloso mundo da organização de eventos? O Ministério tem alugado o forte de S. Julião da Barra para cocktails e jantares, pela quantia simbólica de 6500 euros. E consta que a Sala da Cisterna e a vista para o mar têm feito um sucesso incrível. As festas multiplicam-se todos os meses. Além destas, podem organizar-se colóquios, palestras, mesas redondas, seminários, reuniões… Há uma única ressalva: estão proibidos eventos de natureza sindical e política. Pois, política na sede do Ministério da Defesa é que não. Parece-nos que todos os órgãos do Governo deviam seguir o exemplo de Severiano Teixeira e pôr os edifícios públicos a render. A Ministra da Saúde pode organizar raves nas urgências (as que restam), e tornar mais lucrativo aquele horário dos hospitais em que não há visitas. A Ministra da Educação pode alugar os recintos escolares para grandiosos espectáculos de wrestling e luta greco-romana. O Ministério da Agricultura podia alugar umas plantações para mais um Festival de Verão, que é coisa que faz muita falta por cá… O Ministério dos Negócios Estrangeiros podia fazer sessões de boas vindas e beberetes. Sim, já faz. Mas agora sem ser à borla. E porque não organizar concertos e recitais na Assembleia da República? Parece ter uma óptima acústica. Quando o mundo do espectáculo se cruza com a política o resultado só pode ser um. Ok, podem ser dois. Ou a Odete Santos ou isto – uma saúde invejável das finanças públicas.
30
Mar08

Sinais de Luzes - 30 de Março

condutoras de domingo
Mínimos
Para Hillary Clinton, que tem demonstrado algumas dificuldades de interpretação. A semana passada recordou a sua chegada à Bósnia, em 1996, da seguinte forma: "Lembro-me de aterrarmos sob o fogo de atiradores furtivos. Era suposto haver uma espécie de cerimónia de boas-vindas no aeroporto, mas em vez disso limitámo-nos a correr com as nossas cabeças baixas até aos veículos para chegar à nossa base." A antiga primeira-dama, e actual candidata à Presidência, esqueceu-se apenas dum pormenor. É que em 96 já havia televisões, e tempos de satélite e assim. E o seu desembarque na Bósnia está registado. Também ignorou outro minúsculo detalhe, que é a existência dum site, pouco importante, chamado YouTube, onde vão parar todas as imagens deste mundo e do outro. Assim, o mundo pôde ver essa chegada tão dramática e recheada de perigos.


Atiradores furtivos, não se vê nenhum. O máximo que pode ter acontecido é que Hillary tenha confundido uma menina de oito anos que lhe leu um poema, com um guerrilheiro armado. É que a poesia infantil das Balcãs pode soar muito ofensiva, caso não saibam! Quanto a Hillary ter corrido com a cabeça baixa até ao veículo, também não há qualquer registo. Mas isso se calhar foi só depois das câmaras se desligarem, quando se lembrou que era de bom-tom praticar jogging em visitas de Estado. É bem possível. A candidata já veio dizer que se exprimiu mal, e que afinal só lhe disseram para levar os coletes à prova de bala quando saísse do avião. Isto equivale a dizer que sobrevivemos a um desastre de avião noutro dia, e fomos resgatados no Oceano por um helicóptero. Na verdade, a hospedeira limitou-se a explicar-nos como se usa o colete salva-vidas mas isso é um pormenor sem importância para a nossa história!

Médios
Para um novo movimento estudantil. Muito rebarbativo, como só a malta que anda no Secundário sabe ser. E estes estudantes reclamam contra quê? As propinas? O preço das fotocópias? A má qualidade dos croissants do bar? A falta de uma opção macrobiótica na cantina? A antipatia das funcionárias? A chuva que cai dentro das salas? O peso que carregam nas mochilas? Aquela mania enervante dos professores lhes confiscarem telemóveis e depois não quererem apanhar umas valentes bofetadas? Nada disso. Estes alunos, de várias escolas do país, uniram-se para criar a Plataforma Directores Não. Que serve, tal como o nome indica, para banir a figura autoritária do Director das escolas. É uma ideia tocante e sensibilizadora, vem é... vinte e nove anos atrasada! É que os Pink Floyd já tinham criado uma estrutura semelhante em 1979. E ao menos esses ainda fizeram uns acordes e umas letras, para além de abaixo-assinados e blogs. Diziam assim: “We dont need no education. We dont need no thought control.”


O slogan destes miúdos portugueses é bem mais fraco: Chefes e directores, não queremos NÃO Senhor! Agora, de repente, a causa de todos os males em recintos escolares não é dos alunos problemáticos, não é dos gangs que cercam a escola, não é dos professores incompetentes. É apenas e só dos directores. Essa gente com a mania que é preciso alguém que mande. Que ideia mais salazarista e antiquada! Em tempos em que tanto se fala dos modelos de gestão das escolas públicas, deixamos aqui a nossa sugestão. O modelo de auto-gestão. É assim uma espécie de anarquia, com o lema “deixa andar e logo se vê”. Afinal de contas, é isso que os alunos vão encontrar no mercado de trabalho, portanto não há melhor preparação para o futuro.

Máximos
Para a noite do Porto, que está novamente a ferro e fogo. O que pode parecer estranho, tendo em conta que Bruno Pidá continua preso e que os outros já morreram quase todos. Mas agora o caos está instalado num outro tipo de noite. Mais alternativa. O que também pode soar esquisito, visto que Carolina Salgado já deixou o alterne para se dedicar à carreira de colunável. Mas também não é o negócio dos bordéis que anda nas bocas do mundo. É o dos bailes. Agora em vez de gangs rivais que se envolvem em rixas, temos organizações de bailes rivais que entraram numa espiral louca de auto-promoção. E repare-se nos nomes: Baile da Primavera versus Baile da Rosa. Que volte Pidá e a sua virilidade, por favor! O problema é que os bailes estão marcados para o mesmo dia, à mesma hora. Está aberta a guerra entre Rui Terra e Daniel Martins – lá está… que nomes corriqueiros, faz falta um Berto Maluco. Nesta luta titânica também vale tudo. Não recorrem tanto aos tiros e engenhos explosivos, mas a armas igualmente temíveis, como as falsas confirmações de convidados, as homenagens e as acções de solidariedade. O Baile da Primavera vai ajudar a Liga das Crianças do Hospital Maria Pia. O Baile da Rosa contra-ataca com a APAV e junta-lhe o nome de Maria Cavaco Silva, um trunfo fortíssimo. Mas o Baile da Primavera não desarma: tem Manuel Luís Goucha e Marisa Cruz do seu lado. Isto é coisa para deixar o adversário desnorteado. Mas a malta da Rosa não é de se render facilmente, e vai homenagear os irmãos Rosado, mais conhecidos por Anjos. Isto é o equivalente a uma arma de destruição maciça, sobretudo se eles cantarem as músicas do Resistirei. Tendo em conta que os bailes são só no próximo sábado, ainda vão haver com certeza muitas movimentações das tropas. Esperemos que, algures nas trincheiras deste conflito, alguém pare para pensar no seguinte: estamos no Século XXI. Os bailes de debutantes ou de início de estação não se usam desde os tempos do Eça de Queirós.
 
 
23
Mar08

Sinais de Luzes - 23 de Março

condutoras de domingo
Mínimos
Para a Beer Passion, a primeira revista portuguesa totalmente dedicada à cerveja. Era mesmo esta publicação que fazia falta no nosso país. É que uma pessoa desloca-se ao quiosque para suprir todas as necessidades básicas. E quase consegue. Há jornais para saber o estado do tempo e as recomendações para cada signo... E que às vezes até trazem uma ou outra notícia sobre o mundo! Há também Receitas para microondas do chefe Hernâni Ermida, Guias Tv para saber a que horas dá o Quem quer ser milionário, e resumos das novelas para acompanhar o enredo com uma semana de antecedência. Sem esquecer as revistas com Cinha Jardim e a filha num banho de espuma ou o novo look da Luciana Abreu, para combater a solidão (o que podia ser uma metáfora bem porca, mas não é). No quiosque fala-se de tudo o que interessa: qual é o novo tipo de trança do Quaresma e que tempo vai fazer amanhã. Mas há uma necessidade do ser humano, sobretudo do ser humano português, que estava a ser ignorada de modo indecente até aqui. A cerveja. Quem nutre profundo amor por uma imperial precisa de mais do que um pratinho de tremoços a acompanhar. Precisa de artigos aprofundados sobre a espuma da cerveja, precisa de testes comparativos entre a Sagres e a Superbock, precisa de saber as últimas tendências das grades de mini. Num país em que há lugar para a publicação “Cães e Caça” ou “Rendas e Bordados” era escandaloso não existir esta Beer Passion. Toda a gente sabe que é um hobbie muito mais apreciado pelos portugueses: beber umas jolas, umas loiras, umas bjecas, uns finos...Arriscamo-nos mesmo a dizer que há mais nomes de cerveja do que espécies de caça ou tipos de ponto cruz. A revista “pretende transportar os leitores para novas e irresistíveis experiências”. Aqui para nós, os possíveis assinantes da “Beer Passion” preferem descobrir irresistíveis experiências no café central, de preferência enquanto comem caracóis e vêem a bola!

                          

Médios
Para José Rodrigues dos Santos, que vai publicar os seus livros nos Estados Unidos. Ou seja – depois de vender a Fórmula de Deus ao povo que menos lê na Europa, vai poder impingir o seu Codex 632 aos que pior lêem no Mundo – os americanos. A verdade é que eles são bem mais sensíveis que nós, e vão ter direito a uma edição com metade das páginas. Vão ser poupados a pormenores históricos, que nunca conseguiriam assimilar. Não vão ler descrições de comida porque não apreciam nada esses momentos literários. É natural. Nunca gostamos de ver na teoria aquilo que fazemos melhor na prática. O máximo que os americanos aguentam no que diz respeito a literatura alimentícia é a descrição do Big Mac. E com dificuldade. Na parte dos pickles já estão desconcentrados. Mas o corte mais polémico na obra de Rodrigues dos Santos deu-se nas cenas de sexo. A famosa frase “Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas” nunca vai ser lida em inglês. É pena! O jornalista diz que acharam a cena muito forte, e justifica-se como tendo formatado o romance para o mercado português, com particularidades portuguesas. Nós não sabemos em que recanto do Portugal profundo viverá Rodrigues dos Santos, mas é com certeza um sítio onde quer os filhos, quer as sopas de peixe, se fazem de forma pouco ortodoxa.

Máximos
Para o novo cartão de descontos das Farmácias Portuguesas. Este cartão permite acumular pontos por cada medicamento sem receita médica. Já estamos a imaginar as pessoas a trocarem um poderoso antibiótico por uns sais de frutos bem naturais, para somarem mais uns pontos. É que os estabelecimentos que se regiam pela lei dos pontos, até aqui, eram os hipermercados e as bombas de gasolina. E todos conhecemos malta capaz de ficar apeada em plena auto estrada só para não abastecer na concorrência, ou gente que esteve em casa de baixa médica quando extinguiram o Cartão Dominó no Pingo Doce. Ao que parece o cartão das Farmácias está a registar bons níveis de adesão desde o lançamento. Para ser um sucesso ainda maior, sugerimos que copiem as fórmulas de gasolineiras e supermercados. Por exemplo, criando caixas especiais para quem tem cartão, criando um serviço de entrega ao domicílio e um catálogo de produtos que podem ser trocados pelos pontos. Em vez de bilhetes para concertos podem ser senhas para medir a tensão, ou para aquela balança que fala. Em vez de combustíveis e ambientadores, podem ter pensos rápidos ou pacotes de algodão em edição especial de coleccionador. Ser detentor dum Cartão Farmácia devia dar descontos em viagens – no turismo termal, claro, e a possibilidade de fazer listas de casamento. Ou melhor, aviar receitas de casamento, com remédios para todos os males do matrimónio. A designação dos cartões também devia variar conforme os utentes. Da mesma maneira que existe o cartão Fast Woman ou Fast Generation, devia existir um cartão frota para as famílias numerosas que compram preparados de refeição e vitamina C para todas as crianças. E um cartão Gold para as velhotas que frequentam a farmácia mais do que uma vez por dia. Uma espécie de livre trânsito, onde cada ponto acumulado equivale a mais um minuto da atenção do farmacêutico, para ouvir histórias dos netos emigrados no Luxemburgo. 

16
Mar08

Sinais de Luzes - 16 de Março

condutoras de domingo
Mínimos
Para Gio Rodrigues. Ou melhor, para a notícia que tivemos dele esta semana, no 24 horas. Já estamos habituadas a vê-lo na imprensa, mas normalmente é junto a canapés, frapés e gente colunável. Desta vez a manchete era outra. Rezava assim: “Perseguido pelo Homem do Fraque! Gio diz que não deve nada, mas até ontem um cobrador particular de dívidas não conseguia encontrar o criador”. Esta busca incessante do criador soa mais a introspecção religiosa do homem do fraque do que outra coisa. Mas não. Ao que parece o estilista tem dívidas e anda alguém à procura dele para as liquidar. Gio diz que “não deve um euro a ninguém”. Pois, é precisamente por não ser um euro que andam atrás de si! Se fosse só isso não compensava a deslocação do homem. Não dava nem para a gasolina. Bem, não deixa de ser engraçado que ande um Senhor de Fraque no encalço de Gio Rodrigues. Cá para nós isto é malta que não foi convidada para a Moda Lisboa e quer umas dicas sobre tendências. É que usar fraque, fora dos casamentos VIP, é um estilo meio ultrapassado. Os cobradores acusam Gio de andar sempre a fugir, mas ele responde que está o dia todo no atelier, e é fácil de encontrar. A nossa teoria é que o estilista se escondeu quando viu o credor a aproximar-se da porta. Para não pagar? Não. Simplesmente para não ferir a vista com indumentária tão demodé.

Médios
Para a malta dos blogs, que anda a inovar e de que maneira. Longe vão os tempos em que um blog era uma espécie de “Querido Diário, hoje fui andar de barco”… Também já lá vai a era em que Pacheco Pereira era rei e senhor da blogosfera. A coisa está muito mais democrática e há lugar para todos os pontos de vista. Há até lugar para o “Esmeralda Sim”. Este blog com nome de slogan pró vida, é nada mais nada menos que “a verdade inconveniente” sobre o Caso Esmeralda. Portanto, se viveu os últimos meses ávido de pormenores sórdidos sobre o Sargento Luís Gomes… visite já esmeralda-sim.blogspot.com. O mais provável é que fique desiludido. Não traz grande coisa de novo, a não ser frases inflamadas como esta: “Pensemos no “superior interesse” da menina de nome Esmeralda, cujo pai disputa o direito a baptizar a sua filha na religião católica…” ou “a Nova Gente construiu mais uma peça contra Baltazar Nunes. Ferida de mentira e de parcialidade, tal reportagem constitui mais um exemplo de desinformação”. Mas a proactividade cívica não se fica só por estes assuntos levianos, que metem crianças e adopções. Há quem pense no que realmente importa. Como Paulo Ferreira, autor do pesadelovolkswagen.blogs.sapo.pt, e pessoa que anda por toda a cidade com o seu Touareg topo de gama em cima dum reboque. Isto não é uma forma gratuita de exibicionismo. Não. Até porque de barato esta experiência não tem nada. Paulo Ferreira debate-se há 4 anos com sucessivas avarias no seu carro e resolveu pintar a lista dos problemas na chapa, para que todos fiquem a saber. A marca não só não quer devolver-lhe o dinheiro como o acusou de difamação e o pôs em tribunal. Nós acreditamos que Paulo Ferreira ganhe este processo, mas conhecendo a justiça portuguesa, o mais provável é que quando isso acontecer, o VW Tuareg seja já um clássico, daqueles que só se encontram no Museu do Automóvel.

Máximos
Para o PSD. Que finalmente fez oposição ao governo e tomou uma medida, que por si só, é capaz de melhorar a situação do país. Depois disto, nada mais será igual. Acreditamos que foi o primeiro passo para assumirmos uma posição de destaque nesta Europa tão competitiva: o PSD mudou de logótipo. Apenas a setinha se mantém laranja, tudo o resto foi inundado por azul. Tem lógica. O único logótipo que realmente ganha coisas em Portugal é precisamente dessa cor. Sabemos que o líder do PSD tinha proposto até substituir a seta por um dragão, mas foi impedido por Rui Rio. Não admira que o autarca do Porto esteja de castigo no partido, por ser muito conflituoso… O mesmo se passa com António Capucho, que foi o primeiro a comentar o novo logótipo, e o apelidou de “disparate”. É, nitidamente, uma pessoa fora de moda. Não nos surpreende que esteja prestes a ser dispensado. Luís Filipe Menezes, pelo contrário, está sempre no primeiro pelotão, atrás das tendências. Isso explica que tenha citado Barack Obama no seu discurso, e que tenha operado esta espécie de “Querido Mudei a Casa” no partido. Provavelmente pediu uns contactos de decoradoras ao amigo Santana, ou então recorreu à base de dados da famosa agência Cunha & Vaz e Associados. É como se tivesse remodelado uma cozinha, com mobília venguê e congelador encastrado, super actuais, mas as canalizações continuassem prestes a rebentar. Ainda assim, isto faz muito mais sentido do que possa parecer. É que não se via um fundo azul desde quando? Desde a campanha de Cavaco Silva para as legislativas. Lembram-se? Com o mar a fazer de cenário? Resultou tão bem, mas tão bem, que Cavaco é hoje presidente da República. Já que Luís Filipe Menezes não reúne os restantes requisitos para ocupar o cargo, parece-nos legítimo que tente uma aproximação via elementos decorativos.
 
09
Mar08

Sinais Luzes - 9 de Março

condutoras de domingo
Mínimos
Para o município de Alcobaça, que se assumiu esta semana como “cidade maçã”. É caso para dizer que saiu do armário. Ou da fruteira… Depois de votada a Moção da Maçã, decidiu-se que o futuro passa pelo registo da marca e criação de produtos de merchandising. Oh não! Como se não bastassem os galos de Barcelos, as esculturas das Caldas ou as Nossas Senhoras de Fátima, agora vamos ter crachás e porta-chaves com maçãs de Alcobaça. Os deputados da assembleia municipal acham que o projecto da maçã deve ser uma prioridade para o concelho. A dedicação de uma cidade à causa de um fruto não é, de todo, inédita. Há já vários anos que o município de Oeiras se entregou às questões da Manga, com Isaltino Morais a demonstrar todos os benefícios que uma boa manga pode esconder. Lisboa, com tanto entrave, tanta dívida e tanta demora, podia muito bem passar a Cidade-Banana. Para os lados do Porto, os falhanços de Rui Rio são tantos, que podíamos chamar-lhe Cidade-Melão. A população de Alcobaça parece feliz com o novo nome, mas… será que não reparam que isso nunca trouxe vantagens a ninguém? Veja-se o caso de Guimarães, cidade berço, ou Évora, cidade museu. Não consta que haja mais incentivos à natalidade ou à cultura por lá. E Paços de Ferreira? A famosa capital do móvel ganhou apenas algumas excursões de famílias nortenhas para comprar aparadores para a sala. E mesmo essas, a partir da inauguração do IKEA, nunca mais lá puseram os pés. Portanto, resta à malta de Alcobaça rezar para que não abra nenhum Mega Fruta Almeidas lá ao pé. Seria triste ver todos os despachos e projectos-lei sobre puré de maçã, tarte de maçã, e maçãs caramelizadas, caírem em saco roto.


Médios
Para a ficha de avaliação de professores elaborada na Escola Correia Mateus, em Leiria. Desde cedo que esta história da avaliação dos professores prometia emoções fortes. Com professores forçados a correr todos os alunos a 19 e 20, caso queiram ser colocados no próximo ano. Ou então, professores mais conservadores, que insistem em chumbar aquele miúdo que só entrou na sala uma vez, e foi para os insultar. Esta resistência à mudança vai custar-lhes, no mínimo, uns dez anos em casa, ou uma preciosa vaga no ensino recorrente, à noite, em Miragaia. A ficha em causa foi feita pelo conselho executivo da escola, e na componente “dimensão ética” tinha os seguintes parâmetros: “Verbaliza a sua insatisfação face a mudanças ocorridas no sistema educativo através de críticas destrutivas, potenciadoras de instabilidade no seio dos seus pares”. Ou fá-lo “de forma serena e fundamentada através de críticas construtivas potenciadoras de reflexão.” Cá está um critério ainda mais rigoroso para avaliar professores do que as notas que dão. É óbvio que um docente que entra na sala dos professores elogiando o saia-casaco da ministra da educação é muito mais digno de confiança do que alguém que tem o desplante de dizer que Maria de Lurdes Rodrigues tem muitas rugas de expressão. Posto isto, sugerimos que sejam criados novos parâmetros de avaliação dos professores. Como este – que prato pede com mais frequência na cantina? Caldo verde, pão de alho e feijoada, capazes de criar algum mal-estar junto dos seus pares, ou uma canja de galinha bem neutral, seguida de maracujá, que é, como todos sabem, a “passion fruit”? Parecem coisas insignificantes, mas aquilo que os educadores ingerem ao almoço ou o que pensam do governo de Sócrates é bem mais importante do que saber a matéria. Para nos ensinar o teorema de Pitágoras ou as figuras de estilo, existem os livros, que são muito mais eficazes e já nascem com selo de qualidade do Ministério da Educação. É bem mais prático!


Máximos
Para os CTT. Uma empresa que todos considerávamos tão séria e idónea! Os Correios de Portugal eram, até aqui, uma espécie de porto de abrigo. Como a casa dos nossos avós, onde sabemos que permanece sempre tudo na mesma. Os mesmos bibelots, as mesmas carpetes, os mesmos discos de vinil que já não se fabricam. Nos CTT era a mesma coisa. Os mesmos telegramas, selos comemorativos de qualquer coisa, e livros do Paulo Coelho para folhear, enquanto esperamos que chegue a nossa vez. Tudo isto se desmoronou em poucos minutos, esta semana. Quando descobrimos que afinal os CTT estão metidos em negócios obscuros, que nada têm a ver com a venda de postais de aniversário ou envelopes almofadados. Em causa está a venda de dois edifícios, em Coimbra e Lisboa. Foram adquiridos pela Demagre - companhia com capital de empresas sediadas nas ilhas virgens, a preço de saldo. O prédio em Coimbra, que custou 14 milhões de euros, foi vendido horas de pois ao Grupo Espírito Santo por 19 milhões. Isto sim é inflação! E pensar que anda para aí tudo preocupado com o preço do pão e da bica… O que isto vem provar é que os edifícios dos CTT são muito mais valiosos do que podíamos pensar. O nosso conselho é que entre na Estação de Correios da sua área de residência e experimente comprar, em vez de certificados de aforro, a própria da estação. Valoriza muito mais depressa, pelos vistos! Se lhe calhar um daqueles funcionários mal encarados, que parecem prontos a esmagar-lhe o crânio com o carimbo… Opte por uma abordagem mais suave. Peça apenas um envelope de correio azul ou assim, e tente arrancar um marco do correio à saída. Pode ser que com o passar dos anos se torne artigo de coleccionador.
02
Mar08

Sinais de Luzes - 2 de Março

condutoras de domingo

Mínimos
Para o encerramento forçado do blog humorístico dum professor, por ser considerado desprestigiante pela Universidade do Minho. E isto é um grave sintoma. Não de censura ou privação de liberdade mas de… falta de qualidade humorística. Isso mesmo. Quão terrível terá de ser um blog para ser capaz de envergonhar toda uma instituição? Tem de ser pelo menos ao nível deste “Dissidências”, de Daniel Luís. Logo no cabeçalho surge a advertência: “o Director do dissidências avisa desde já que os textos aqui publicados resultam de doença mental incurável”. Seguem-se parágrafos em várias cores, do lilás ao amarelo, escritos pela personagem “T-humor ao sol do planeta Rissol”. E a utilização do tipo de letra “Comic Sans”, que é o último reduto para quem não caiu em graça mas quer ser muito engraçado. Responsáveis da universidade dizem que o docente não foi obrigado a encerrar o blog, mas apenas a “rever elementos que fossem considerados incorrectos para um educador”. Daniel Luís não percebe porquê. Nós também não. Afinal de contas, ele só fez vídeos em cuecas brancas, no cimo dum telhado. E piadas tão boas como: “se Cristo tivesse morrido há 20 anos atrás, os Cristãos em vez de andarem com cruzes ao pescoço andariam com uma cadeira eléctrica ou uma seringa”. Isto são coisas que esperamos de qualquer professor catedrático. Não vemos qualquer motivo para a nota de repúdio da Faculdade, nem sequer para terem pedido a David que não fizesse mais stand up comedy. Se ele é assim na net, ao vivo deve ser ainda melhor. Aliás, num dos vídeos do blog, vemos que o soberbo sentido de humor já vem de longe. Daniel aparece num Preço Certo (ainda em escudos) com Nicolau Breyner, onde ao sair de estúdio com a assistente colocou a legenda “agora é que te vou papar todinha”. A nossa única dúvida é: David, porquê insistir na docência, quando tinha um futuro brilhante de entertainer à sua frente?


Médios
Para Simone de Oliveira. Sim, nós sabemos que é uma grande senhora da canção nacional, e que o seu arregalar de olhos encosta Chucky, o Boneco Diabólico, a um canto. Sabemos até que “quem faz um filho, fá-lo por gosto”, e que há um País Chamado Simone. Mas, ainda assim, tantos pergaminhos não justificam que chame Badameco ao director da RTP. Ainda se tivesse interpelado o senhor para lhe chamar outra coisa! Agora, badameco? O confronto deu-se na apresentação da novela Vila Faia, e talvez daí a necessidade da actriz usar vocabulário da época. Indignada com a decisão de passarem o remake da novela aos fins-de-semana, Simone disse a José Fragoso que era uma “injustiça, uma fraude!”. Foi uma sorte não ter usado as palavras patranha ou moscambilha. Apesar do interlocutor de Simone se ter mantido sempre calmo e sereno, a discórdia subiu de tom. Até porque uma pessoa que enche o Coliseu sozinha, por sua conta e risco, não precisa de ajuda para agitar uma discussão. Longe vão os tempos em que Simone “como o sol de Inverno” não tinha calor. A cantora recomendou, exaltada, ao director da estação pública que saísse do seu lugar e fosse para casa cozer batatas. Temos de aplaudir esta sublime transformação do insulto machista em feminista. Se às mulheres é recomendado que fiquem por casa a coser meias, a um homem Simone sugeriu que cozesse… batatas. O que é muito menos nobre. É que se cosendo meias ainda se pode aspirar a uma carreira na alta-costura, cozendo batatas a aspiração máxima deve ser a cozinha dum refeitório público. Assim como assim, José Fragoso já está no ramo dos serviços públicos.

Máximos
Para a nova moda nos Estádios nacionais. O Sporting/Benfica de logo é alvo de todas as atenções da polícia. E não nos referimos só aos polícias barrigudos que logo à noite vão estar na esquadra a beber minis e a discutir quem merece mais o 2º lugar. Falamos sim da polícia de choque, já que mais de 600 agentes vão marcar presença em Alvalade. Concentrados não no relvado mas nas bancadas, que são sempre mais disputadas do que a bola. Ali sim, há marcações homem a homem como deve ser! É certo que o futebol tem mudado muito ao longo dos anos. Antigamente os jogadores usavam calções que mais pareciam cuecas e o Eusébio conseguia correr 20km sem ser desarmado. Mas é nas bancadas que o sinal dos tempos se faz sentir com mais força. Quem aplaudia Chalana e Manuel Fernandes eram pais de família, de bigode, que levavam os petizes à bola, no domingo à tarde. A preocupação da PSP nessa época era que os espectadores não gritassem alto de mais, para eles conseguirem ouvir o relato na telefonia. Anos mais tarde, a grande dor de cabeça passaram a ser os Ultra. Claques de futebol com apetência especial para a violência e para a pilhagem de estações de serviço. Malta cujo amor ao futebol é tanto que não se importam de passar o jogo todo de costas para o relvado, a gritar para um megafone. Uma espécie de sindicalistas da bola, mas em estilo mais agressivo que o Carvalho da Silva. Agora, em pleno século XXI, a tendência é outra: o movimento casual. Adeptos que vão para o estádio sem cachecóis ou bandeiras, e se deslocam nos seus próprios carros. Mas que são mais violentos que os No Name Boys e a Juve Leo, todos juntos. Nós já conhecíamos o estilo casual, mas era de convites para festas. Por este andar qualquer dia vão aparecer os adeptos casual chic, que levam faixas debruadas em ouro, os adeptos dress to impress, cujos galhardetes terão purpurinas, e os adeptos fato escuro, que mesmo sem serem da Académica terão capas negras até aos pés.

24
Fev08

Sinais de Luzes - 24 de Fevereiro

condutoras de domingo
Mínimos
Para quem anda a fazer macumba ao Makukula. Já é demais! Tudo começou há uns meses, na estreia pela selecção. Um dia que devia ser de festa transformou-se numa data traumatizante, quando Makukula descobriu que não tinha levado… chuteiras. Isto parece aqueles pesadelos em que vamos a andar pela rua e de repente percebemos que estamos nus. Mas aí tudo passa quando acordamos. O caso de Makukula é bem mais grave. A maré de azar que o atacou não parece disposta a ir-se embora. Ainda mal refeito do episódio das chuteiras, o universo quis que fosse ele a esperança de 6 milhões de benfiquistas. Um rapaz que ainda ontem estava em Kinshasa a jogar ao pião, de repente transforma-se em D. Sebastião da Luz. Logo ele, que nunca prometeu golos, nem gosta de andar envolto em nevoeiro. Mas o karma do craque não fica por aqui. Esta semana desapareceram-lhe da conta 200 mil euros. O seu empresário, Ricardo Rodrigues, tinha-se oferecido amavelmente para os levantar e pagar a pronto um apartamento para o jogador. Já não pode uma pessoa ter boas intenções, que logo o Destino faz das suas. Assistimos a verdadeira magia negra, já que o agente diz ter sido sequestrado por 4 africanos, que o abandonaram de pés e mãos atadas na Estação de Alhos Vedros, e levaram o dinheiro de Makukula. A má sorte acabou aqui? Não. No dia seguinte o benfiquista viajou para Nuremberga, onde toda a equipa ficou meia hora pendurada, à espera dos seus champôs. Isso mesmo. Entre tantas malas, de tanto jogador metrossexual, só uma se extraviou. O pequeno necessaire do grande Makukula. Ao pé disto, o Mantorras é um homem sortudo. É caso para modificar o apelo, e pedir aos astros: “deixem jogar o Makukula!”.

Médios
Para uma dona de casa algarvia que achou por bem, aos 57 anos, lançar-se na carreira de traficante de estupefacientes. Mais precisamente, anfetaminas vindas do Brasil. O pior nem foi isto. É que em certas profissões, como a de dealer, os meios justificam os fins. A finalidade da senhora é que foi totalmente errado! Uma coisa é vender droga para fazer as pessoas felizes, para se alhearem dos problemas, para verem unicórnios cor-de-rosa, para curar a ressaca, seja o que for. Agora, vender droga a outras senhoras de meia-idade para emagrecerem é apenas parvo! Toda a gente sabe que as viciadas em dietas são tão vulneráveis como as pessoas com dívidas, doentes, ou com filhos desaparecidos. Só que em vez de recorrerem a videntes africanos, recorrem a qualquer ervanária que as faça perder meio kg. Não vale a pena importar droga, basta dizer-lhes que o chá verde do Pingo Doce é miraculoso. Felizmente, a Polícia Judiciária, em mais uma operação com nome digno de novela – Operação Manter a Linha – acabou com este disparate. Apostamos que foi a primeira vez que uma rusga teve lugar não num bairro degradado, nem numa praia semi-deserta, mas sim num salão de cabeleireiro, ou numa boutique. Lugares privilegiados para este tráfico de anfetaminas. O modus operandis era simples. Esta doméstica de Lagos não tinha de fazer muito mais do que andar pela rua e esperar que lhe dissessem “ai está tão magra, como é que fez?”. O que podemos sugerir a esta senhora, que agora aguarda julgamento na prisão, é que se junte à Herbalife. Para quê complicar? O método é exactamente o mesmo e nem vai ter que andar aí a segredar pelos corredores da cadeia. Pode usar orgulhosamente um crachá a dizer “quer perder peso? Pergunte-me como!”, e quando sair em liberdade, terá um Porsche à sua espera. Equipado com o célebre autocolante “Trabalhe a partir de casa”.

Máximos
Para Fidel Castro. Que finalmente percebeu que talvez estivesse na altura de se retirar. Demorou um bocadinho a chegar lá mas sempre ouvimos dizer que “depressa e bem não há quem”. Além do mais a rapidez não é uma das qualidades do comandante, como vimos ao longo dos anos nos seus discursos de 10 horas. De resto, nos últimos tempos as notícias que saíram sobre Fidel Castro assemelhavam-se mais a um Boletim Clínico do que a Notas de imprensa. Em 2001 desmaiou a meio dum desses concisos discursos, em 2003 estampou-se em pleno mausoléu do Che Guevara, em 2006 foi operado ao intestino… Por este andar, só havia duas notícias possíveis para saírem agora. Ou: “Fidel cai de um escadote ao tentar alcançar umas bolachas digestivas para molhar no leite”, ou: “Fidel renuncia à Presidência.” A verdade é que, depois de ter trocado o fato de guerrilheiro pelo fato de treino, o mais provável é que a próxima aparição do ditador fosse em pijama e roupão. Assim, tomou a decisão mais acertada, retirando-se para uma merecida reforma dourada. Agora vai poder fazer tudo o que fazem as pessoas da sua idade, em Cuba: ficar em casa à espera que passe o embargo dos EUA e possam curar as disenterias com coca-cola verdadeira, e não aquelas imitações cubanas. Apesar da sensatez da retirada, El Comandante avisou logo que vai continuar a publicar as suas reflexões nos jornais. Traçando um paralelo com o caso português, Fidel vai passar a ser uma espécie de Pacheco Pereira. Mas com argumentos um bocadinho mais fortes do que “ter o blog mais visitado do país”. O presidente demissionário já tem na calha o sucessor, que é, curiosamente, o seu irmão Raul. E comparando ainda os dois países, assim de repente, sentimos um enorme alívio por não conhecermos nenhum irmão a Alberto João Jardim.



17
Fev08

Sinais de Luzes - 17 de Fevereiro

condutoras de domingo
Máximos
Para Cavaco Silva. Ou melhor: para a partida que “nuestros hermanos” lhe pregaram. Então o nosso presidente da república viaja para Espanha convencido que vai receber tratamento VIP, numa cerimónia solene para se tornar doutor de forma mais rápida e fácil do que Sócrates se tornou engenheiro… E afinal de contas vai mas é participar numa encenação, uma espécie de sarau de Natal fora de época!? Cavaco acabou por alinhar num festejo híbrido, entre a solenidade dos doutoramentos honoris causa – com a parte do discurso formal, e a descontracção dos cortejos de Carnaval – tendo em conta a farpela que lhe enfiaram. E sobretudo, o chapelinho que tinha na cabeça! Que fez dele o melhor compromisso jamais conseguido entre: um abajour de casa das nossas avós e a célebre Ana dos Cabelos Ruivos. Nós, povo de Portugal, devemos estar orgulhosos, por termos o primeiro Presidente capaz de criar esta simbiose mágica entre peças decorativas dos anos 30 e animações infantis. Temos também a certeza que disse coisas muito acertadas no seu discurso, mas não conseguimos ouvir uma palavra que fosse. Concentradas no abanar compassado das franjinhas do chapéu! Ao mesmo tempo toda aquela cerimónia dava ares de jogos sem fronteiras, com as equipas verde, azul, laranja… Apesar da equipa de León estar em superioridade numérica, o nosso Cavaco, representando os cor-de-laranja, não se saiu nada mal. E, mais importante de tudo: no meio daquele folclore todo, de capinhas e chapéus coloridos, apenas três pessoas pareciam bem vestidas. Quem eram elas? Os príncipes das Astúrias, Felipe e Letícia, e ainda… Maria Cavaco Silva! É verdade. Ascendeu a esse patamar real de gente fashion, e isso é o maior progresso que podemos desejar para Portugal. Maria Cavaco Silva é agora “janota honoris causa”. Coisa muito mais importante que qualquer doutoramento!

 

Médios

Para Valentim Loureiro. Que voltou, finalmente, a tribunal. Um regresso aguardado por todas nós, que recordamos com saudade o episódio em que a filha abraçou o pai Loureiro, de roupão no seu jardim. Gritando a plenos pulmões: “Tenho orgulho, muito orgulho neste pai!” Mas este reencontro com a justiça foi, acima de tudo uma desilusão. Uma coisa morna, sem gritos – o que é difícil quando falamos do Major, e sem um pijama ou uns chinelos de quarto que seja… Tudo muito sóbrio. À entrada do Tribunal de Instrução Criminal do Porto Valentim disse apenas que “vai ser quinze a zero”. Nitidamente esclerosado, o ex-dirigente do Boavista equivocou-se. Provavelmente pensou que o estavam a levar para o camarote VIP do Estádio do Bessa. Valentim Loureiro recordou aos jornalistas que já intentou uma acção ao Estado, por ter sido afastado da presidência do metro do Porto, e garantiu que pensa mover outra acção. Desta feita, para ser ressarcido dos prejuízos e danos morais sofridos pelos seus familiares. Lá nisto, Valentim tem alguma razão. Quer a filha, que fez aquelas bonitas figuras, quer João Loureiro, essa estrela decadente da pop nacional, são pessoas que sofreram danos irreversíveis. Mas parece-nos que Valentim está a levar demasiado longe a teoria de que a culpa é sempre do Estado. Desta vez os governantes estão inocentes. A não ser por não terem incluído uma alínea na lei do ruído, sobre progenitores que falem alto demais. É que os traumas irreversíveis sofridos pelas crianças Loureiro foram ao nível do ouvido interno. E quanto a isso, o colectivo de Juízes do Apito Dourado nada pode fazer. A não ser que, para além dos árbitros, haja suspeitas de corrupção passiva de otorrinos e pediatras.

Mínimos
Para Susana Barbosa. Ainda não conhece? Em breve vai conhecê-la tão bem como Sá Carneiro ou Lula da Silva. E não vai ser preciso despenhar-se de avião ou meter-se nos copos. É que esta empresária Aveirense, casada e com dois filhos, tem um vício que vai torná-la famosa. Algumas mulheres usam as compras como forma de libertar o stress, outras preferem o ginásio, e há ainda as adeptas dos chocolates. Mas Susana Barbosa tem um passatempo diferente para aliviar tensões. Fundar partidos. Isso mesmo. Para quê gastar 5€ em comédias românticas, ou um balúrdio num par de sapatos, quando pode simplesmente criar-se uma nova força política? Susana foi fundadora do PND – Partido da Nova Democracia, que acabou por abandonar no fim do ano passado, em rota de colisão pessoal e política com Manuel Monteiro. Agora, está à frente da comissão instaladora do PL – Partido da Liberdade. Diz que já tem meio milhar de inscrições de militantes, que é uma forma pomposa de dizer que tem 500 assinaturas. A verdade é que recolhê-las é um exercício tão bom para o coração como caminhar 30 minutos à beira mar ou subir e descer escadas. Este hobbie eleito por Susana Barbosa parece-nos bastante apetecível. Até porque mete eventos e festas, que são sempre de louvar. Ela espera fazer o congresso fundador ainda este ano, uma óptima ocasião para dois dedos de conversa e alguns canapés. Susana vai ainda mais longe e diz que o Partido da Liberdade quer ser o “BÉ da Direita”. E não há coisa mais in do que o BÉ, toda a gente sabe isso. Por alguma razão deixou de ser “Bloco de Esquerda” e passou a ser apenas “BÉ”. Estas siglas funcionam para os partidos políticos como os diminutivos para as tias. Para quê ser Maria Alice quando se pode ser Lili? De resto, é tudo igual. Pouco importa se as pessoas lêem Trotsky ou Margarida Rebelo Pinto, deve pensar Susana Barbosa. E tem toda a razão, o que importa mesmo é que as pessoas se reúnam e não pensem nas agruras da vida. E não há nada melhor do que debates políticos para esvaziar a cabeça. É isso e telenovelas.

 

10
Fev08

Sinais de Luzes - 10 de Janeiro

condutoras de domingo

Mínimos

Para Ben Affleck. Nós, como já se sabe, não somos de intrigas. Mas temos de concordar que é demasiada coincidência que o enredo do novo filme de Ben Affleck seja o decalque da história de Maddie McCann! E sobretudo que tenha sido filmado antes da criança desaparecer. Nós achávamos que estávamos perante o maior caso policial português. Percebemos agora que estamos perante a melhor estratégia de marketing à escala mundial. Ben Affleck planeou tudo. Ele é muito mais poderoso do que podíamos supor. Quem o viu no Armageddon e no Pearl Harbor nunca imaginaria que há uma inteligência escondida por trás da cara de “Um Pai à Maneira”. Depois de anos a fingir que era a actor, Ben está dedicado a fingir que é realizador. Olhando apenas para o título do filme podíamos pensar que o bom e velho Ben está na mesma. É que Gone Baby Gone faz lembrar perigosamente uma música do Brian Adams. Mas Affleck está mais refinado que nunca. Não tanto a escolher planos e ângulos, mas sim a convencer pessoas. Convenceu o seu irmão, actor muito mais convincente, a entrar no filme, convenceu Morgan Freeman a fazer uma perninha também, convenceu a academia a nomear Amy Ryan para melhor actriz secundária… E parece-nos que vai ter de convencer a polícia de que não foi mesmo ele a raptar Maddie. Raptar não, é uma palavra muito forte. Convencer Maddie a abandonar o apartamento na Praia da Luz e ir conhecer Hollywood.

Médios
Para o Dança Comigo. Numa época em que todos os dias fecham licenciaturas, o programa da RTP vai oferecer bolsas de estudo. Para quê? Para jovens bailarinos dos 14 aos 16 anos poderem ir para Londres. Faz sentido. Com a quantidade de licenciados desempregados que existem em Portugal o mais certo é que a única profissão de futuro no nosso país seja membro de corpo de baile. Basta ver televisão para saber isso. E nós ainda na terça-feira vimos, em horário nobre, o espectáculo “Gelosia”, coreografado pelo Marco de Camillis e com belos cançonetistas a acompanhar. O termo é mesmo este: cançonetistas, porque parecia que tínhamos recuado, por algumas horas, aos primórdios da Televisão Pública. Ou isso, ou que havia uma interferência terrível no nosso transmissor, que fez com que apanhássemos um serão da TV Caracas. Onde os espectáculos de variedades ainda são o expoente máximo da animação. Ao ver Marina Mota e Patrícia Bull a abanar as ancas no Gelosia, percebemos que o mundo está mesmo feito para eles. Não os actores, mas os Alunos de Apolo. Catarina Furtado, apresentadora do Dança Comigo, “namoradinha” de Portugal e, por este andar, futura ministra da Educação, diz que “o Dança é um programa que dá para juntar qualidade e divertimento sem ter de ir para coisas mais foleiras”. Então ela acha que fatos coleantes em dourado e saias com folhos roxos não são coisas foleiras! E é esta pessoa que tem nas mãos o futuro dos jovens portugueses? Está bem… Depois admirem-se de nunca virmos a ter um Nureyev ou um Barishnikov que seja!

Máximos
Para toda a gente que esta semana encaminhou para os seus contactos um e-mail a apelar ao voto em Lisboa. Não, não é uma nova campanha do Sá Fernandes. É votar em Lisboa para constar no tabuleiro do novo monopólio. World Edition, diz que é assim que se chama. Pois se tem nome estrangeiro nós queremos entrar! Tudo o que dê boa imagem ao país lá fora nós queremos muito. Sejam as 7 Maravilhas do Mundo ou Dakars que não chegam a arrancar. É uma espécie de operação estética a nível nacional. Já que os órgãos internos sofreram já danos irreversíveis, a malta investe em liftings e peelings na política externa. E as nossas relações com o exterior passam, nitidamente, pelo Monopólio. Quanto mais não seja porque as nossas trocas comerciais se fazem com notas daquelas de brincar, e grande parte dos jogadores passam a vida a ir para a Casa da Prisão. Este mail que nos chegou às mãos é um pedido desesperado. Diz assim: “Registem-se e votem por Lisboa. Podem votar todos os dias até à data limite da votação, por isso coloquem um reminder diário na V/ agenda. É simples, fácil e rápido. E temos que incluir uma cidade portuguesa neste jogo que fez a delícia da nossa infância!” Vamos por partes: 1º - reminder diário? Existem vidas assim tão vazias? Para que um afazer diário, depois do supermercado e do correio, seja ir votar no Monopólio? 2º - É mesmo necessário incluir uma cidade portuguesa no jogo? Seguindo essa lógica, os queijinhos do Trivial teriam de ser Queijos de Nisa, da Serra e de Azeitão. Mas pronto, colocar Lisboa no Monopólio é uma causa nobre. Parece-nos perfeitamente válido dedicar a vida a isso. Ou a isso, ou a incluir um Zé Silva no Quem é Quem, ou um moliceiro na Batalha Naval.
Por isso, vão aqui votar em Lisboa. Vá lá! Já que não conseguimos pôr o país no mapa, vamos ao menos pôr a cidade no tabuleiro. O que promete ser tarefa difícil, já que neste momento estamos em quadragésimo quarto lugar. À frente de Chicago, é certo. Mas demasiado perto de Kuala Lumpur.

27
Jan08

Sinais de Luzes - 27 de Janeiro

condutoras de domingo
Mínimos
Para Bill Clinton. Que adormeceu durante uma cerimónia evocativa de Martin Luther King. É caso para dizer: “he had a dream!”. Literalmente. Bill deixou a mulher a fazer campanha na Carolina do Sul, que ela é que tem idade e saúde para essas coisas, e tirou uns dias para descansar. E que sítio melhor pode alguém escolher, para passar pelas brasas, do que uma Igreja Baptista? À partida nenhum. Salvo 2 excepções: ser-se ex-presidente dos EUA e estar exactamente atrás do púlpito dos discursos. É que dá um bocadinho nas vistas… Muito se falou há uns tempos do miúdo que bocejou enquanto ouvia um discurso de George Bush… E esse nem sequer chegou a adormecer, coitado. Além disso tinha duas atenuantes: 1º, a conversa do Presidente era bem mais monocórdica que a do filho de Luther King (que passou o tempo aos berros), 2º: o miúdo estava em fase de crescimento. Aquela em que se dorme 14h por dia sem problema. Agora Bill…? Um homem tão activo? Conhecido pela sua vitalidade e vigoroso sopro no saxofone? (Não há qualquer tipo de insinuação de mau gosto nesta frase!). Ele dormiu mesmo profundamente, com direito a cabeçadas no ar e tudo. Só faltou babar-se para cima do executivo do lado.

              

Esta é a prova derradeira de que Hilary vai perder as eleições. Porquê? Porque a partir desta semana Bill é, oficialmente, o “Mário Soares lá deles”, dos americanos. Isto implica que a sua esposa seja uma Maria de Belém, ao melhor estilo América do Norte: pode arriscar mais nos tons dos vestidos, mas viverá condenada às obras de caridade e aos leilões na mesma. Ela que se prepare não só para a derrota eleitoral, mas também para ver o seu marido adormecer em tudo o que é cerimónia pública, arranhar um “Salut comment ça va?” macarrónico a qualquer momento, e passear em cima duma tartaruga gigante nas próximas férias de Verão. Ah, e claro, neste processo de Soarização, Hilary vai ter de dar a Bill Clinton uns suplementos. Para ver se engorda um bocadinho. Por nós, tudo bem, desde que não façam nascer mais nenhum João Soares. O mundo não está preparado para dois.

Médios
Para o leite! Que vai subir mais de 10 cêntimos por litro já em Fevereiro. Engraçado que quando fazemos contas ao litro normalmente falamos em gasolina. Agora a inflação chegou ao reino dos lacticínios, o que promete deixar muitas famílias não à beira dum ataque de nervos, mas duma crise de descalcificação. E não é preciso esperar pelo mês que vem para ver os primeiros efeitos desta crise. Basta ir a um qualquer supermercado para ver as prateleiras do leite completamente vazias. Um distribuidor, em declarações à imprensa, disse que vivemos um compasso de espera. Quem distribui prefere aguardar uma semana sem repor stocks para poder ganhar mais 10 cêntimos por pacote. Já estamos mesmo a ver. Da próxima vez que formos ao Continente dão-nos uma senha de racionamento à entrada, como em tempo de guerra. E se tivermos direito a um daqueles pacotes de Nesquick com palhinha já é muito bom. Essa é toda a lactose que entrará no nosso organismo durante esta semana. Mas a verdadeira festa vai começar depois. Com um aumento previsto de 37% por pacote, no 1º trimestre deste ano, podia até criar-se uma bolsa do leite. E isto não é mais uma alternativa ecológica aos sacos de plástico nos hipers, é mesmo uma Bolsa de Valores. Em vez de Euronext podia chamar-se Lactogal. E assim acompanhávamos as oscilações nos jornais. Víamos se as acções da Gresso e da Agros estão em queda, como está o índice Mimosa ou qual a cotação da garrafa de UCAL. Se, por exemplo, tivermos em casa um pacote de Matinal Meio Gordo a desvalorizar 4% podemos sempre tentar uma transacção, com poucas comissões. Trocar por um pacote de UHT Parmalat, que sempre tem capitais estrangeiros.


Máximos
Para quem se deu ao trabalho de vandalizar a lápide de Salazar. Não valia a pena. Nós sabemos que os vencedores de concursos televisivos despertam sempre grande curiosidade, mas é mais fácil abordarem um mais recente. Ainda há um mês um senhor ganhou um cheque chorudo, por ter provado que sabia mais que um miúdo de 10 anos – coisa rara entre os portugueses. Mais valia incomodá-lo a ele do que ao ex-ditador, ou ex-salvador da pátria, conforme os gostos! Porque ele só consegue materializar-se diante de nós quando invocado por Maria Elisa. Fora isso, recusa-se. É escusado insistir. O Presidente da Câmara de Santa Comba Dão, onde fica o cemitério, acha que isto foi uma manifestação de cariz político. Faz algum sentido. As últimas manifestações políticas em Portugal, como o louco aumento de 5 cêntimos nas reformas ou a construção do aeroporto em Alcochete, deram-se todas pela calada. A altas horas da noite e rezando para que ninguém dê por nada. Tem tudo a ver com este cenário do cemitério de Santa Comba Dão. O Presidente da Câmara afirma mesmo que “foi puro vandalismo, alguém que agiu mesmo com maldade, de propósito, porque trouxe um paralelo da rua, que foi encontrado no chão do cemitério”. Ora aqui está um argumento de peso. Nunca mais nos tribunais se ouvirá a dúvida “teve ou não intenção de matar a vítima?”. Porque bastará perguntar: “levou um paralelo da rua?”. Se levou, é porque foi mesmo um crime cruel. Se levou só umas armas de fogo ou um machado, o mais provável é que tenha sido sem querer.

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.

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