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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Condutoras de Domingo

03
Fev08

Condução Defensiva - António Alfacinha

condutoras de domingo
Poucas coisas sabem tão bem como poder ler uma história da Turma da Mônica. Sobretudo para aqueles que pertencem a uma geração que cresceu ao ritmo das pequenas aventuras do Cebolinha, do Cascão, da Magali e de todas as personagens com sotaque brasileiro imaginadas por Maurício de Souza. É o meu caso e, por isso, não resisti a correr para as bancas quando soube que, no último número dedicado ao Cebolinha, é apresentado António Alfacinha, o miúdo luso. Foi há um ano que, em homenagem aos portugueses, Maurício decidiu criar a personagem. O miúdo luso é um rapaz de Lisboa, com roupa a condizer com as cores da nossa bandeira e um penteado que tanto nos traz à memória um belo bigodaço à portuguesa como o cabelo de Paulo Bento. Para além disso, fala português de Portugal, isto é, sem sotaque brasileiro. São, aliás, as diferenças culturais e linguísticas entre Alfacinha e os seus novos amigos brasucas o nervo das primeiras histórias protagonizadas pelo miúdo luso. Muitas dessas diferenças são assinaladas, nos quadradinhos, pelo próprio Maurício para que não passem por erros, o que inevitavelmente nos faz pensar nas muitas discussões sobre o acordo ortográfico. Mas estas histórias, por si só e sem querer, demonstram que o acordo resolveria apenas parte da questão. As expressões, o modo de falar, as referências, mesmo com acordo, seriam diferentes. Por exemplo, António Alfacinha, por tudo e por nada, sai-se com um «ó pá» e com um «ora, pois», nunca com um «qualé»; em vez de «bacana» diz «porreiro»; em vez de «legal» diz «bestial»; e para ele «apelido» não é «sobrenome». Tudo isto deixa as outras personagens entre o divertido e o confuso, sem perceberem se aquele minúsculo e provocador exemplar do bom português está ou não a gozar com a cara deles. No entanto, há algumas fragilidades nestas histórias, há frases e palavras que Maurício põe na boca do miúdo luso que a mim, também tão lusa, me deixaram com vontade de consultar o dicionário. Nem numa caricatura faz sentido Maurício achar que o miúdo luso não sabe que ser frangueiro é deixar entrar golos absurdos ou achar que um miúdo daquela idade diz «borracho avoado» em vez de «pombo» e «gaja» em vez de «miúda». Mas, enfim, tudo se perdoa a Maurício, até porque há detalhes muito bons nestes quadradinhos. Como quando Alfacinha se apaixona à primeira vista pela temível Mônica, tentando conquistá-la com bolinhos de bacalhau e pastéis de Santa Clara. Ou seja, como bom português que é, o rapaz gosta delas cheiinhas e sabe que tem boas hipóteses se investir na satisfação do estômago. Para além disso, a história consegue ser tão eficaz que acabo de reparar que, ao longo de todo o tempo que estive com o livro nas mãos, as falas do miúdo luso foram lidas mentalmente em português e as das personagens da Turma da Mónica em brasileiro. E isso, rapaziada, para mim, mais do que bestial, é bem legal!

20
Jan08

Condução Defensiva - Just Girls

condutoras de domingo
Há uns dias, um jornal partilhava com os leitores informações sobre o top nacional de vendas musicais. O grande destaque ia para o primeiro lugar das Just Girls. Eu, que desconfio de tops (excepto talvez de top models), fiquei intrigada com dois aspectos: primeiro, porque é que isto é notícia com interesse suficiente para ter acima de 200 caracteres?; segundo, quando diz Just Girls está a falar de quê?! Fui investigar e confirmei: as Just Girls são literalmente apenas umas miúdas; são só miúdas, onde não entram rapazes (salvo seja). E estas miúdas foram lançadas nos Morangos Com Açucar, ou seja, são as Dzrt femininas ou a versão cor-de-rosa dos Four Taste. E, assim como quem não quer a coisa, com a inocência de quem canta sem saber cantar e acha que Beatles é nome de carro giro para ter, o álbum das mocinhas chegou à tripla platina. Como não havia de chegar se, de acordo com a Associação Fonográfica, nos dez primeiros lugares do top, a seguir às “só miúdas”, temos o Avô Cantigas, o homem que, numa semana, galgou sete lugares! Qual Manoel de Oliveira, qual quê! O Avô Cantigas é que é; tem a mesma vitalidade há 25 anos! Mas não é tudo. Ao que parece, entre os primeiros, contam-se ainda Carlos Paião e os Irmãos Verdades. Ora bem, o Paião morreu ainda o Avô Cantigas não tinha bigode. É certo que, nos idos anos 80, surgiram uns rumores de que tinha sido enterrado vivo. E isso não será castigo suficiente?! Têm agora que, passado tanto tempo, enfiar o homem no top nacional?! Já com os Irmãos Verdades aconteceu-me o mesmo que com as Just Girls, uma coisa do género: «Quem?». São angolanos, dá-me ideia, e nas letras que escrevem distribuem amor por toda a gente. Mas o top prossegue. Segundo a notícia que li, por lá se mantêm também a Bebé Lilly, a Amália e os «Il Divo, com Dreams In Color». E eu a achar que este era o título do último álbum do David Fonseca. Que palermice a minha! Ora bem, quer-me parecer que o top nacional é mais a árvore genealógica de uma família portuguesa do que outra coisa: há o bebé, Lilly claro, e há as miúdas fofinhas a liderar a coisa como qualquer adolescente que se preze; há o Avô eterno e “embigodado”; o morto, Paião, que, qual Frei Luís de Sousa, ressuscita quando menos se espera; os irmãos africanos, que tocam o coração, relembrando o passado colonial da família. Há ainda, com Amália, a matriarca que faz sombra a todos; e, claro, uma ovelha negra, cujo nome é proibido dizer, o único talento da família que, por cantar em inglês, foi enganado pelos primos, uns mafiosos italianos que lhe roubaram as canções. Falo é, claro, de David Fonseca e dos Il Divo, a cereja que caiu do topo (e do top) desta bela, disfuncional e eclética família...

09
Dez07

Condução Defensiva - Literatura Maddie

condutoras de domingo
2007 é um ano histórico para a literatura universal - foi este o ano em que se consolidou um novo género literário, a literatura Maddie. A literatura Maddie tem algumas afinidades com a literatura light: ambas exploram temas que, de tanto se falar neles, de tanto serem vividos, acabam por se tornar lugares-comuns; ambas almejam atingir o grande público e fazer muitos tostões à conta disso; ambas seduzem esse “grande público” com títulos bombásticos e apelativos que, em regra, pouco têm a ver com o que se passa dentro do livro. Para além disso, se, tal como dizem os que não gostam de Literatura, a grande vantagem da literatura light é pôr toda a gente a ler, aposto que, a partir de agora, a literatura Maddie vai transformar Portugal num país com elevados índices de leitura. Porém, apesar das semelhanças, a literatura light é superada pela literatura Maddie. Desenganem-se os que pensam que a literatura light é o mais digno ramo da literatura que nada acrescenta. Incorrecto! Esse lugar pertence à literatura Maddie, a literatura que nada de novo tem a dizer-nos. Ora vejam: ao contrário dos autores da literatura light, os da literatura Maddie recusam a ficção; eles movem-se para além dela, no campo das hipóteses, no campo das formas verbais conjugadas no condicional: poderá ter desaparecido dali, poderia ter morrido acolá, terão sido apanhados, e tudo “alegadamente”, claro. Mesmo os títulos, subtítulos e intertítulos da literatura Maddie têm um impacto emotivo junto do grande público que supera em larga escala o da literatura light. O que pode um Sei lá contra um Por que adoptámos Maddie? ou A culpa dos McCann? Nada, não pode nada. Porque a literatura Maddie apresenta, logo nos títulos, um rosto, um nome, ao qual as pessoas se atiram como cães a ossos. Há um palavrão para isto: não é fome, não é curiosidade; é sensacionalismo. E depois há ainda outro aspecto que coloca a literatura Maddie na pole position das literaturas que nada acrescentam: os prefácios assinados por nomes sonantes. É que estes prefácios conseguem ainda acrescentar menos do que os próprios livros. Francisco Moita Flores, por exemplo, chama ao livro A culpa dos McCann, que prefacia, “uma reportagem de grande fôlego”, sendo que este é o livro onde se sustenta que Maddie «continua sem aparecer e, à hipótese inicial de rapto, as evidências obrigam a que se considere, também, a da sua morte». A sério?! Terão eles a certeza do que escrevem? Ou dirão isto apenas “alegadamente”?!
02
Dez07

Condução Defensiva - Sousa Tavares vs Pulido Valente

condutoras de domingo
Hoje, não recomendo livros. Ou melhor, até podia falar dos recentes livros de Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente. Mas para quê? Para quê se, por detrás do que os senhores andam a escrever, se esconde um aceso bate-boca que tem agitado Portugal?! Por detrás não! Pela frente: Sousa Tavares e Pulido Valente andam a usar todo e qualquer cantinho de jornal para se difamarem um ao outro. Mais parecem duas comadres a puxarem os cabelos uma à outra, enquanto tentam desferir pequenos socos verbais nas suas pálidas bochechas. Tudo terá começado quando Vasco – vamos tratá-los pelos nomes para sentirmos mais de perto o calor do combate - classificou Equador como “um romance de aeroporto”. Dizia que a história tinha um herói, “uma espécie de super Miguel um pouco ridículo, com o seu arzinho aristocrático e a sua obrigatória consciência de esquerda”. Depois, acrescentava aquilo que podia ser a segunda parte da novela: Miguel teria revelado ao Expresso que Vasco não tinha lido o livro quando falou dele; depois foi lê-lo e achou-o óptimo. Quem terá contado isto ao Miguel foi um amigo anónimo, certamente um outro vizinho da Lapa, esse bairro pródigo em nobres desentendimentos, um amigo que Vasco descreve como “tão analfabeto” quanto Miguel. Ora digam lá se estes não são insultos ao nível dos que se ouvem nos estádios de futebol?! Pois não, não são. São o produto de duas línguas viperinas de trazer por casa com demasiado tempo a perder. É que Miguel também não resistiu a dizer que o conhecimento do mundo que Vasco tem não vai muito além de Oxford e do Gambrinus; e mais: que ia dar cabo dele. Apetece dizer: ó minhas meninas, tenham juízo. Deixem lá essas brigas de bairro chique. E sobretudo deixem de ocupar as páginas dos jornais com as vossas querelas provincianas. Todavia, não deixam. Há uns dias, Vasco voltou à carga: escreveu milhares de caracteres sobre Rio das Flores. Os insultos e as críticas são semelhantes. Não vou repeti-los. O que me preocupa é o rebuscado masoquismo destas figuras. Vasco, por exemplo, leu Equador no hospital, só porque não tinha cabeça para mais nada. Quem não tem cabeça para mais nada e está internado, não se põe a ler um romance que o tortura pela mediocridade! Acho eu. Mas eu também acho que deviam resolver isto com terapia conjugal. Ou recorrendo a uma astróloga. A nossa está de férias, infelizmente. Fica deprimida com as estratégias pouco dignas que inventam para vender livros; com o Natal; e com duelos sem espada, muita tinta e pouco sangue, como a destes dois senhores que têm maus fígados e problemas de vizinhança a todos os níveis.
25
Nov07

Condução Defensiva - Byblos

condutoras de domingo

Portugal é um país pequeno, mas, tal como reza o ditado, só se sente atraído pelo seu oposto, ou seja, por tudo o que é GRANDE, EM GRANDE e À GRANDE. Depois da maior largada de touros, do maior pão com chouriço, do maior logótipo humano, do maior shopping - do universo, do mundo, da Europa, chegou a vez da Byblos, a maior livraria do país, uma livraria única no mundo pelas inovações tecnológicas de que dispõe. Os números relativos ao novo espaço são também do agrado dos portugueses: são muitos, soam a muito e remetem para realidades grandes, enormes, gigantes. Ora vejam: em 4 mil metros quadrados de área, divididos por 2 pisos com 25 tipos diferentes de iluminação e mais de 40 plasmas, foram investidos 4 milhões de euros para que estejam disponíveis 150 mil títulos. Se há por aí alguém que não esteja impressionado, ligue-nos, por favor, por ser daqueles para quem o tamanho não interessa, e isso interessa-nos. Isso interessa-nos não por gostarmos do Portugal dos Pequeninos, mas pela simples razão de o Portugal dos Gigantes ser o lugar onde se sentem em casa os megalómanos e não os visionários. Os megalómanos que acham que há espaço para mais shoppings na cidade onde existe um Colombo ou os megalómanos que acham que há espaço para um festival de cinema semelhante a Veneza ou Cannes num país onde não se faz cinema e as maiores celebridades são estrelas de reality show. Eu devo confessar que, não sendo megalómana (reparem que até costumo andar num carro de 3 portas com mais 3 ou 4 miúdas), fiquei feliz com a Byblos. Apesar de ter uma fonte a jorrar água num sítio onde os livros não se querem molhados, apesar de ser tão grande que muitos casais vão finalmente conseguir separar-se sem nunca mais se encontrarem, ali os livros estão arrumados em estantes inteligentes que não nos deixam perder o rasto ao que procuramos. Mesmo que todo este conforto proporcionado aos clientes seja interesseiro, isto é, seja motivado pela vontade de acabar com distracções e concentrar as atenções no que se vende, o que é certo é que vou livrar-me das horas passadas na escura Biblioteca Nacional. E isto é o MAIOR upgrade da minha qualidade de vida. Por isso, recomendo que, a partir de Dezembro, troquem o Colombo pela Byblos. Como se vão perder de certeza durante uma semana lá dentro pode ser que cheguem efectivamente a ler qualquer coisa. Como o MAIOR romance de sempre, por exemplo.

18
Nov07

Condução Defensiva - Com os Copos

condutoras de domingo
Num país onde os loucos ao volante se multiplicam mais depressa do que coelhos em tempo de cio e em que as pessoas matam e morrem tanto nas estradas que entopem os canais de acesso ao Céu e ao Inferno, há um livro que devia ser de leitura obrigatória. Chama-se Com os Copos, foi escrito por um Miguel Esteves Cardoso em boa forma e é um verdadeiro guia espiritual, não sobre a arte de bem conduzir, mas sobre a arte de bem beber cocktails e líquidos enebriantes afins. Caros condutores e condutoras de Portugal, esta é a obra por que tanto esperávamos, é a obra que nos vai libertar do volante e diminuir o índice de mortalidade nas estradas nacionais. Com os Copos, o livro, tem a capacidade de nos manter dentro de casa, de nos deixar naquele estado dormente que nos cola o rabo ao sofá e uma pálpebra à outra. O truque é simples: basta fazermos exactamente o mesmo que a maior parte das pessoas faz antes de morrer e matar nas estradas portuguesas – beber. Com os Copos fala de tudo o que é bom: Cosmopolitans, whiskeys com Castello, Cubas Libres, Daiquiris, vinhos brancos, Manhattans, sangrias, caipirinhas e, ouçam bem, shots. Quem aproveitou bem os 15, 16 e 17 anos sabe do que estou a falar e devia prestar homenagem a Miguel Esteves Cardoso. Ele é o homem que redime os shots depois de todas as bebedeiras, depois de todos os vómitos; ele é o homem que, sem pudor, escreve sobre a “dignidade providencial dos shots”; ele é o homem capaz de perceber que um shot tem mais efeitos práticos na nossa vida do que a ciência, a filosofia ou a religião. Esteves Cardoso serve-nos de bandeja os melhores motivos para regressarmos aos shots. Há quanto tempo não vos passava pela cabeça um B-52? Ah, pois é: um B-52 é o produto mais perfeito daquilo a que Esteves Cardoso chama as “artes misturológicas”. Por isso, em nome de todos estes “cocktails minimais”, façam o esforço.
Deixamos em baixo a receita. Bebam uns quantos B-52’s e lancem-se, com os corações em chamas, para a estrada mais próxima. Só não se esqueçam de que o objectivo é chegar à livraria. De preferência, uma com supermercado perto para  não perderem tempo e abastecerem a despensa de shakers e bebidas espirituosas.

Ingredientes:
Absinto - 1 dose
Licor de Café -1 dose
Licor de Whisky - 1 dose

Preparação:
Num copo de shot, coloque, em partes iguais e por esta ordem, licor de whisky, licor de café e absinto. Por cima, uma palhinha. No momento de servir, pegue fogo com um isqueiro. Beba enquanto arde, com uma palhinha e, de preferência, rapidamente para que não derreta.
11
Nov07

Condução Defensiva - Tintoretto

condutoras de domingo
Parece que anda por aí – por Portugal, quero eu dizer -, há 40 anos, um Tintoretto e ninguém deu conta. Dizer que anda por aí um Tintoretto não é o mesmo que dizer “encontrei o Wally!”. O Wally é o desenho de um bonequinho minúsculo escondido entre cem mil desenhos de bonequinhos minúsculos quase iguais a ele; um Tintoretto é um quadro pintado por um dos grandes nomes da Renascença Italiana, por um dos maiores artistas europeus do século XVI. Neste caso, é um quadro desses com cinco metros de comprimento por dois de altura. Ou seja, coisa difícil de perder de vista e de valor incalculável. Ao que parece, o quadro desapareceu na Veneza do século XVIII. E só voltou a ser avistado há 40 anos em Portugal, quando o banqueiro lisboeta Jaime Pinho o comprou. Mas nem uma Adoração dos Magos perdida no século XVIII, em Veneza, consegue levar uma vida tranquila em Portugal. O banqueiro morreu, doou o quadro, por disposição testamentária, ao Mosteiro de Singeverda, em Santo Tirso, e os monges beneditinos que, por acaso, até tinham uma parede livre, ocuparam-na com a obra. Não faziam ideia de que estavam a pendurar um Tintoretto. Na verdade, ainda ninguém sabe com toda a certeza. Excepto o historiador de arte Vítor Serrão, que afirma que põe as mãos no fogo pela autoria do quadro: é um «Tintoretto, provavelmente feito a meias com o filho Domenico, o seu herdeiro artístico». Mas isso de pôr as mãos no fogo não impede que o quadro seja sujeito a uma série de procedimentos que mais parecem uma operação especial do CSI: exames laboratoriais, fotografia de infravermelhos, raios X, análises microquímicas e por aí fora. Nós desejamos tão ardentemente quanto Vítor Serrão que a obra seja mesmo um Tintoretto. Não só o património nacional fica mais rico, como as pessoas vão ficar a saber que ter um Tintoretto em Portugal não equivale à abertura de mais uma loja de pronto-a-vestir feminino para classe média. E, claro, sempre vai dar para varrer, por uns tempos, o “assunto Hermitage” para debaixo do tapete do esquecimento...
04
Nov07

Condução Defensiva - Frederico Lourenço

condutoras de domingo
No século IV a.C., Teofrasto escreveu Caracteres, uma soma de caricaturas dos “cromos” de então: o pedante, o forreta, etc. Frederico Lourenço defende que é uma das obras-primas da prosa grega, e nós acreditamos. Só não acreditamos, ou melhor, não queremos acreditar no facto de o erudito professor, escritor e tradutor se ter habilitado a publicar uma actualização falhada desses Caracteres. Para justificar o “aportuguesamento” e a “modernização” das caricaturas, Frederico Lourenço referiu a paixão que nutre por “este milagre de requinte”. Ora, eu procurei, procurei e... nada de encontrar o referido “milagre”! Que diabo! Como sou teimosa, voltei a procurar e lá encontrei qualquer coisa: uma quantidade enorme de banalidades que levam 72 páginas a encontrar um fim ansiado desde a primeira caricatura desta primeira incursão de Frederico Lourenço no território minado do humor satírico. Diz assim: «O burgesso não sabe comer à mesa: isso já se sabe. Arrota (“com licença”).» E mais não acrescento porque a coisa não melhora; apenas nos deixa a suspirar por O’Neill, que nunca precisou de pretextos eruditos para ter graça. Aliás, sempre que lhe aparecia o sublime, dizia: «Quem é?/ O sublime./ Diz-lhe que entre./ Faz bem ao sublime/ estar entre gente.» Nestes Caracteres do século XXI não há nem sublime nem gente. As caricaturas são tão pobres que falham ao tentar encontrar um rosto que queira encaixar nelas. Por ser tudo demasiado óbvio, sendo que no humor só funciona o oposto do óbvio. Há, porém, um pormenor que diverte: as ilustrações. Ficamos a matutar na razão que terá pesado na escolha de um ilustrador que ainda frequenta a “pré”. Parece que o traço lembra o de Lancaster e Ionicus. Está bem. Eu desconfio que isto também tem a ver com a pose snob de Frederico Lourenço. Aqui, tenta sair do seu habitat e dá nisto: em caricaturas lisas e imperceptíveis, como O Piroso, «alguém que gasta o ordenado em óculos de sol»; ou noutras que, há 10 anos, já eram piadolas de café, como O gay discreto, «que conseguiu não divulgar a si próprio que é homossexual». Ao contrário de Frederico Lourenço, autor de livros «muito autobiográficos». Neste, tenta iludir-nos e passar-nos a perna(o malandro!): diz que O lisboeta coimbrão é uma autocaricatura. Não, não, não, caro Fred, eu li os seus Caracteres. Você é O intelectual vienense «lindo de morrer», que parte o coração à «população estudantil». «Pose? Alguma, como convém ao talento». Acertei?
28
Out07

Condução Defensiva - Eça Agora!

condutoras de domingo
Esta semana, ao chegar a casa, tinha a caixa do correio inundada com convites para lançamentos de livros. Em todos, um aspecto comum: no título, apareciam nomes de figuras bem conhecidas dos portugueses: Eça, Pessoa e Salazar. Em tempos em que já nada surpreende no campo editorial português, devo confessar que fiquei estupefacta. Primeiro, porque nunca imaginei encontrar Eça, Pessoa e Salazar, os três juntinhos e tranquilos, em amena cavaqueira dentro da minha caixa de correio. Segundo, porque agora o mercado livreiro vive de incomodar os mortos. Lá que chateiem o Salazar, escrevendo romances que falam de movimentos secretos, de ventos de mudança e do assassinato de um ditador, ainda é como o outro. Como continuamos todos à espera do D. Sebastião, não nos custa nada levar com um livro que substitui uma cadeira por um homem naquilo que foi um pequeno passo para a história da democracia portuguesa. Agora, o que não se admite é que se ponham a publicar livros, invocando os santos nomes de dois dos nossos maiores escritores em vão. É que é de facto em vão ou, então, para amealhar o tostão, que estes livros são publicados. A primeira destas duas novidades editoriais chama-se Eça Agora e tem como subtítulo Os Herdeiros de Os Maias. O convite apresenta uma foto com 7 pessoas, os supostos herdeiros. São escritores, todos eles gente crescida a quem eu nunca imaginei que faltasse a lucidez para perceberem que ninguém vai reconhecê-los como filhos de um homem que viveu no século XIX. Mais depressa se engoliam as histórias das meninas que se dizem mães de filhos do Quaresma. Mas se isto me espantou, mais surpreendida fiquei quando dei de caras com um aviso exclamativo. Proclamava Organizem-se! e o subtítulo explicava: A Gestão Segundo Fernando Pessoa. Parece que Pessoa olhou para a economia portuguesa adoptando «uma posição liberal de influência britânica». Pelos vistos, continua por encontrar o fundo da arca do poeta, mas que lhe vão aliviando o peso desde que a obra caiu no domínio público, isso é certo. Isso e o facto de se encherem outros bolsos que já não os dele. Talvez porque olham para a obra pessoana adoptando «uma posição liberal de influência britânica». Essa agora!...

21
Out07

Condução Defensiva - Reader's Digest

condutoras de domingo
As Selecções do Reader´s Digest fazem 40 anos. Para comemorar à grande, resolveram editar Os Lusíadas. Sem dúdiva que isto faz todo o sentido. Em primeiro lugar, porque as Selecções são consideradas, pelos assinantes, uma publicação de fácil digestão. Os Lusíadas também,evidentemente. Se assim não fosse, não seriam as criancinhas obrigadas a ler a obra épica de Camões na escola. São ambas literatura para devorar durante o lanchinho. Em segundo lugar, a revista, de tamanho portátil, tem sido sempre recebida com alegria nos lares portugueses, passando de avós para netos, de pais para filhos, de padrinhos para afilhados. Ninguém escapa, porque há sempre secções aliciantes para todos. Há até quem não resista a ler aquilo de fio a pavio: começa-se pelos Flagrantes da Vida Real e as Piadas de Caserna, passa-se pelo Rir É o Melhor Remédio, para logo de seguida se entrar nas páginas das entrevistas de fundo e de superfície, dos dramáticos casos reais e dos artigos literários com histórias situadas algures entre a narrativa mística e a epopeia erótica de cabeceira. Escusado será dizer que, com Os Lusíadas, passa-se o mesmo: há uma certa tendência hereditária, um certo peso da obrigação, uma conjugação de temáticas surpreendente e uma mestria literária inigualável. Esta edição é bom exemplo disso e promete recorrer à linguagem acessível para que todos possam redescobrir a beleza da obra. Daí ser organizada e comentada por José Hermano Saraiva. Quem mais?! Em 900 páginas, teremos a intensidade do drama, do humor, do heroísmo e do fantástico presente em qualquer exemplar das Selecções. É que Saraiva promete revelar um Camões «mais humano», «um homem em luta com o tempo hostil, que desafia a força dos deuses», ou seja, um homem próximo dos que protagonizam os artigos das Selecções. Lembram-se de «O seu filho toma ecstasy?», capa da última edição? E de «Dentro da escola do terror»? Como esquecer, não é? Há ainda um terceiro aspecto capaz de explicar esta ligação umbilical das Selecções a Os Lusíadas. Não se atrevam sequer a pensar em estratégias de aliciamento das famílias assinantes, que tanto gostam de exibir enormes calhamaços ilustrados na mesinha do café da sala de estar! Não! Há aqui razões mais profundas. As Selecções e Os Lusíadas são indissociáveis por, juntos, terem esculpido um comportamento determinante do modo de viver contemporâneo: o zapping. Esta revista e a obra de Camões têm vindo a formatar, paulatinamente, os nossos cérebros, habituando-nos a viver num estado de desatenção permanente. Sempre foi essa a lógica de leitura das Selecções praticada, com afinco, pelos assinantes; sempre foi essa a lógica de leitura d’Os Lusíadas praticada, com afinco - claro está - pelos nossos esmerados estudantes.

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.

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