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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

Condutoras de Domingo

20
Abr08

Condução Defensiva - Vila Faia

condutoras de domingo

Apertem os cintos e entrem numa condução defensiva à caça-fantasmas. É verdade: hoje vamos caçar um fantasma - uma alma penada que marcou os anos 80; depois, durante 20 anos, andou adormecida nas nossas memórias, feliz pelas recordações que originou; agora, resolveu acabar com a distância a que se costumam manter as leves memórias e regressou em força. Em força é como quem diz porque este pobre fantasminha bem quer assumir os múltiplos formatos que o século XXI proporciona, mas não tem sido fácil. Primeiro, arrastando uma corrente ferrujenta, o fantasma quis retomar a sua antiga vida, sob a forma de êxito televisivo. A coisa correu mal; aliás: a coisa começou por correr mal, está a correr mal e parece que vai continuar a correr mal. Por isso, perante um insucesso, o que fazer? Mandar o fantasminha de volta para o céu estrelado das nossas memórias? Não! O truque é insistir, escarafunchar bem no insucesso, dando-lhe novas asas, daquelas que parece que dão para voar e, todavia, apenas ajudam a que a queda seja mais a pique. Para acabar com o suspense, que mais parece saído do argumento de um regresso dos mortos vivos, versão série Z, vou identificar o fantasma: Vila Faia, a própria, a mesma. E a outra também, a do remake. Vila Faia, a novela que víamos sentados no chão em frente ao sofá do avô, de mãos dadas com a família, em plena comunhão televisiva. Vila Faia vai agora ser transformada em livro. Como se não bastasse a RTP ter atirado a história para um horário pouco dado a êxitos. Soube disso (eu e as outras condutoras) através de uma notícia de jornal que desapareceu sem deixar rasto no mundo da informação portuguesa. Procurámos, procurámos e não descobrimos mais nada a não ser que em breve haverá livro. Ou talvez não. Se calhar, o fantasminha, tão desprezado que tem sido na versão remake televisivo, vai revoltar-se, recusando ser livro. No fundo, já sabe que o esperam as prateleiras inalcançáveis das grandes superfícies. Depois disso, o abate, uma espécie de segunda via do passaporte para o universo dos mortos; desta feita, sem a possibilidade de deixar boas recordações. É por isso que recomendo, esperando ainda ir a tempo, a quem teve a ideia de transformar Vila Faia em livro, que pare! Aposte antes no material escolar ou, melhor, numa caderneta parecida com a do Roque Santeiro, aquela onde se podiam colar as cabecinhas das personagens. Será certamente um sucesso capaz de acender a polémica e de justificar um prós e contras dedicado ao tema «Afinal, que cara deve ser atribuída a Godunha? A de Nicolau Breyner ou a de Albano Jerónimo?» E toda a gente sabe que só estes pequenos detalhes têm o poder de ressuscitar os mortos e fazer um grandes sucesso.

13
Abr08

Condução Defensiva - Acordo Ortográfico

condutoras de domingo
Se a língua fica mais forte ou mais fraca, se as alterações às palavras são ou não muitas, se vai haver prejuízos para a economia nacional ou o favorecimento dos interesses empresariais brasileiros, pouco importa. O Acordo Ortográfico anda aí, mas enquanto estas questões se debatem no Parlamento, colocando frente a frente Vasco Graça Moura e Carlos Reis, multiplicando artigos de opinião nos jornais e opondo metade da blogosfera portuguesa à outra metade, esta história do Acordo Ortográfico já se transformou no mais recente divertimento dos portugueses. É a nova montanha russa do país, onde todos vão acabar por andar – mesmo os mais cautelosos, os mais medrosos, ou os que sofrem do coração e de gaguez. Quem tem dúvidas (não quanto à aprovação do acordo, mas quanto ao quão benéfico é ele para a saúde anímica do país) que repare no que tem acontecido nas últimas semanas: o Acordo transformou-se em entretenimento puro e duro. E melhor que novela! Por um lado, há cerca de uma centena e meia de mails sobre o assunto a circular na net. Em formato slideshow, excel, jpeg, pdf, as piadas com textos, animações e fotos que exploram até ao limite as possíveis consequências do acordo obrigam todo e qualquer honesto trabalhador do país a suspender de 3 em 3 minutos as suas funções. Afinal, esse trabalhador está apenas a reflectir sobre uma questão crucial para o desenvolvimento do país, uma questão que não pode ser negligenciada e que obriga ao empenho dos cidadãos. Por outro lado, há uma série de jornais que, de repente, trocaram umas boas páginas de sensacionalismo hard core por outras tantas dedicadas à política da língua. Veja-se, por exemplo, o 24 Horas. Entre o artigo que cita o Cláudio Ramos, anunciando que daqui a 9 livros já pode ser considerado um grande escritor, e um outro que cita as apresentadoras do Fama Show, anunciando que daqui a 9 implantes já podem ser consideradas umas grandes Pamelas Andersons, lá está: «Acordo Ortográfico em discussão». E, depois, há o grande trunfo deste acordo: a capacidade de relançar o culto do trocadilho. Em todas as esquinas, lá está um português a treinar a língua: ele é aborto ortográfico; ele é acordo abortáfico; enfim, ele é o que se quiser porque agora somos livres de manipular a língua e arranjar modo de o justificar. No fundo, o acordo ortográfico já está a ser bom para o país. Diverte e estimula a imaginação na senda da melhor tradição lúdico-lusitana. Por isso, bem hajas, acordo. Poucos são os acontecimentos em Portugal que antes de o serem já o eram. Tu és um desses casos: fomentas o debate num país de brandos costumes e entretens o povo, muito à la «panem et circenses». Aliás, nós, aqui no nosso carro, já comprámos bilhetes para o circo.
06
Abr08

Condução Defensiva - Literatura Maddie

condutoras de domingo
E agora algo completamente... idêntico! A literatura Maddie está de volta a este nosso carro! Como resistir-lhe quando as caixas de mail estão entupidas com informações sobre mais livros dedicados ao desaparecimento da menina McCann?! Desta feita, a obra chama-se A ESTRELA DE MADELEINE e foi escrita por Paulo Pereira Cristóvão, o antigo inspector da PJ de cuja pena saiu A ESTRELA DE JOANA. Parece que o que o levou a dedicar-se ao caso Maddie foi um desafio lançado pela editora do livro. (Pudera... Para quê continuar a disfarçar o facto de Maddie se ter tornado num negócio rentável?) Mas, segundo Paulo Cristóvão, houve outra razão: Portugal e a PJ foram «vítimas dos mais violentos ataques de que há memória sem que da (...) parte [dos] portugueses e instituições portuguesas tivesse havido defesa.» E, vai daí, qual justiceiro, publica A ESTRELA DE MADELEINE. Comovidas, nós e o nosso carro, portuguesas dentro de uma instituição portuguesa, agradecemos. Sobretudo porque o autor diz que escreveu este livro «com o coração», considerando-o «um grito luso contra aqueles que, entrando pela soleira da nossa porta dentro, não quiseram nem souberam respeitar-nos.» E como é que, então, nos damos ao respeito? Publicando livros atrás de livros sobre uma investigação ainda não terminada, com base, e passo a citar o autor, nos «poucos factos apurados pelos investigadores e nas contradições das testemunhas». Há quem lhe chame receita do sucesso. Não; afinal esta é a receita do respeito. E não leva mais nada, a não ser a promessa de desafiar os leitores a encontrarem a chave deste enigma. Ora, o único enigma que vislumbro aqui é como descobrir neste livro uma «nova visão, elucidativa e vital para a conclusão dos factos e apuramento da verdade». Mais parece alguém a querer substituir-se à própria PJ, afirmando ao mesmo tempo a sua credibilidade. Mas que sei eu disto? Nada. Afinal, Pereira Cristóvão esteve 5 meses a escrever este livro, cuja publicação não podia mais ser adiada (não vá Maddie aparecer algures e estragar tudo!). Fico apenas aliviada por perceber que A ESTRELA DE JOANA lhe custou 3 anos e meio de trabalho de escrita, ou seja, comparando com os 5 meses que lhe levou o livro sobre Maddie, percebe-se que Paulo Cristóvão anda a conseguir publicar em menos tempo. Dentro de semanas teremos certamente outro livro. Talvez A ESTRELA DE MARILUZ. E, claro, por sugestão de uma qualquer editora, teremos ainda a primeira colecção de literatura Maddie: a colecção «A Estrela de...». Só espero é que, entretanto, continuem a mediatizar casos de crianças desaparecidas ou esta colecção corre o risco de ter que se virar para os objectos perdidos. E assim teríamos que levar com mails a anunciar o imperdível A estrela das chaves de casa ou A estrela dos óculos escuros...
30
Mar08

Condução Defensiva - O Enigma

condutoras de domingo
Já aqui uma vez anunciei um novo e muito recente género literário, a literatura Maddie. Tal como previsto, a literatura Maddie teve o seu período de vacas gordas e depois esmoreceu. Até porque se estava a tornar repetitiva, tendo em conta que não havia a possibilidade de renovar a narrativa nem as personagens, a acção, o enredo. Mas, como em Portugal há muitas cabeças inventivas, surgiu entretanto um sub-género dentro da literatura Maddie. Chama-se literatura Maddie ficcionada e, tal como o nome indica, cria uma ficção a partir da história real que todos conhecemos. A distinção entre o género maior e o sub-género tem gerado uma intensa discussão no meio académico, pois é tão difícil perceber onde começa um e acaba o outro como é complicado entender onde termina a realidade e se inicia a ficção neste caso concreto. Consta que uns teóricos chegaram a levar uns valentes estalos à conta disto... Seja como for, o que é certo é que agora se publicam romances, cujos autores não negam que se inspiraram no desaparecimento de Maddie. Alguns tentam, como é o caso de Francisco Duarte de Carvalho, responsável pelo recente O Enigma da Praia da Luz. Diz ele que o livro é uma ficção baseada em factos reais e que, no entanto, não está a criar nada de novo. Isto causa alguma perplexidade porque a ficção pressupõe isso mesmo: a criação de algo que se deseja novo. E o que é que este livro conta?

Ouçam bem: uma história sobre UMA MENINA DESAPARECIDA. Onde? No Algarve, na PRAIA DA LUZ. E mais? Há DÚVIDAS QUANTO AO DESAPARECIMENTO E À INVESTIGAÇÃO POLICIAL. Só? Não! Há ainda JORNALISTAS metidos ao barulho. Então o que é este livro traz de novo? Passo a citar o autor: «Não posso adiantar muito sobre o enredo, mas revelo já que, no final, há uma criança que aparece.» Fabuloso! A única coisa que nos poderia levar a ler o livro é a estratégia adoptada pelo próprio autor para espicaçar a curiosidade dos leitores. Se isto não é esperto, caramba! Não se bastou com ele com a invenção de um sub-género literário!... Enfim, com esta revelação, espero que os ouvintes que costumam viajar connosco aos domingos de manhã estejam gratos por mais uma leitura que lhes poupámos. Não é preciso lerem este livro. A história é praticamente igual à de Maddie, só que no fim a criança aparece. É isto. Valha-nos o facto de o autor deste romance dizer que está de consciência tranquila. Haja alguém!  
23
Mar08

Condução Defensiva - Chocolate

condutoras de domingo
Já aqui foi dito várias vezes que a tradição deixou de ser o que era. Ora, nas épocas festivas, este problema torna-se ainda mais agudo e real, deixando os mais sensíveis aos bons costumes literalmente de rastos. Sobretudo quando se deparam com um misto de instrumentalização da Páscoa e da literatura, uma verdadeira embrulhada pascal que, na realidade, como muitos dos fenómenos desta nossa desbragada actualidade, não tem grande explicação. Tanta conversa para falar de um fenómeno blogosférico recente. Pelo menos, recente para mim e julgo que para todas as condutoras, todas elas demasiado ocupadas com as coisas úteis da vida para prestarem atenção a estes fenómenos. O que acontece é que há por aí gente na blogosfera que, usando como pretexto a Páscoa, faz listas de livros que contêm a palavra... Vejam lá se adivinham. Cristo? Não! Ressurreição? Não! Folar? Não, mas estamo-nos a aproximar a uma velocidade vertiginosa. Pronto, OK, eu digo: chocolate.

Chocolate é a palavra que movimenta uma série de gente. Para além dos gulosos, os que não têm mais nada que fazer a não ser recomendar livros para as férias da Páscoa que contenham a palavra chocolate. E, apesar do desinteresse da tarefa, esta “movida pascal” tem regras: nada de livros de receitas! O que, do meu ponto de vista, é algo contraditório, uma vez que quem faz listas só pelo prazer de fazer listas devia ao menos tirar algum partido disso. Um livro de receitas com chocolate, que ensina a cozinhar com este saboroso ingrediente, daria certamente alguns frutos, como um bolo de brigadeiro, um coulant ou coisa que o valha. Mas não! Nestas listas, não há cá espaço para receitas; é mesmo uma lista inútil que recomenda que, nesta Páscoa, sejamos todos felizes ao ritmo da leitura das palavras de Laura Esquível, Joanne Harris, Katia Canton e por aí fora. Ou seja, uma quantidade de literatura tão doce que enjoa e pode inclusivamente provocar o vómito. Eu recomendo que, em nome de uma feliz, saudável e santa Páscoa, fujam desta lista a sete pés. Se ela se cruzar no vosso caminho virtual, se ela vos surgir num mail, a ideia é essa mesma, a da fuga. Mal por mal, sempre será melhor ficarem em casa a folhear o Pantagruel da avó, criando uma antologia pessoal de receitas para a Semana Santa. Depois, claro, de cumprirem a vossa missão pascal, oferecendo aos afilhados uma edição especial d’A Minha Primeira Bíblia Ilustrada. Isso, sim, seria honrar a tradição.
16
Mar08

Condução Defensiva - Marta Crawford

condutoras de domingo
«Cabe a cada mulher pegar nas rédes da sua sexualidade, do seu desejo e das suas necessidades.» A frase é de Marta Crawford, sexóloga e autora de mais um livro, ou melhor, de mais um guia de sexo para as mulheres. Chama-se Viver o sexo com prazer e foi apresentado há uns dias por uma quantidade de mulheres glamourosas, adultas e cheias de experiência, daquelas que supostamente não deviam ter problemas de sexo. Mas, claro, em nome do marketing e das vendas, vale tudo, até dizer que este livro é precioso por desvendar segredos ocultos do sexo, como a desmistificação da masturbação, o sexo oral, os brinquedos sexuais e mais uma quantidade dessas coisas que, segundo Marta Crawford, não nos devem passar ao lado. A séxologa justifica também este livro, afirmando que «é importante as pessoas conhecerem-se» e que não é preciso «pedir licença para saber como é o nosso corpo», no qual «há locais que dão muito prazer». Tudo bem. Eu acho mesmo muito bem que uma sexóloga nos lembre disto; só não percebo é o que é que os livros têm a ver com o caso. Para quê editar um livro a dizer isto? É que já há o Kama Sutra, essa sim, uma obra com todo o sentido porque não aconselha; o Kama Sutra manda. Manda-nos pôr-nos assim e depois assim e respirar assim e tal e tal. É uma espécie de livro de instruções que se lê rapidamente porque o que interessa é passar à acção. Porque se há coisa com que os livros não se dão bem é com o sexo. Gente que tem muitos livros na mesinha de cabeceira, das três uma: ou é gente muito organizada, capaz de saber o que faz e a que horas; ou é gente desocupada, capaz de ler duas linhas sem adormecer e estar disponível para interrupções na leitura sem perder o fio à meada; ou então é gente que pura e simplesmente já não se lembra bem do que é o sexo. E isto complica-se se os tais livros na mesinha de cabeceira levantarem questões como as do livro de Marta Crawford: «Sabia que o orgasmo vaginal é um mito? Como comunicar intimamente? Como nos devemos proteger?». Ou, pior, se pensarmos que se trata de um guia para as mulheres: «O pénis não é o milagre do sexo.» Ora, uma mulher que se ponha a ler isto ficará tão perplexa, baralhada e confusa, ficará tão afogada em mitos, utopias e aforismos sexuais, que pouco espaço terá na sua mente para o verdadeiro acto. Isto é para desmentir o mito, provando que o pénis é de facto o milagre do sexo. No fundo, ficará sem cabeça para aquilo que devia interessar a Marta Crawford: a verdadeira prática. Por isso, cara amiga, deixemo-nos de palavras. Dá jeito, é certo, vender uns livros para comprar mais brinquedos sexuais. Mas de formalismos e teorias já estão as mulheres saturadas. E isso não é bom para o sexo.
09
Mar08

Condução Defensiva - Cláudio Ramos

condutoras de domingo
Um romance policial sobre o universo cor-de-rosa português que mistura factos reais com outros ficcionados. São estes os ingredientes de mais um bolo, ou melhor, de mais um intragável pastelão do mundo editorial português, daqueles em que se dá uma trinca e se deseja estar sozinho para se poder cuspir tudo para a borda do prato. Não por falta de dedicação do mestre pasteleiro, neste caso, o cronista social Cláudio Ramos, que passou um ano de roda deste pastel, ao qual ele chama romance policial. Pior: pastel ao qual ele chama romance policial ao qual ele chamou Geneticamente fúteis. Há títulos que dizem tudo, há até gente que estuda o que os títulos podem dizer, e depois há estes outros títulos que se percebem quando quem os inventou fala sobre aquilo que titula. Confuso, não é? Pois é, porque foi assim que fiquei quando tentei descobrir o que é este Geneticamente Fúteis. De acordo com o autor, o livro ou, aqui entre nós, o pastel é uma coisa que «implicou muito trabalho, já que intercalar personagens não é fácil». Não é, de facto; vejam-se, por exemplo, os desenhos animados do canal Panda. Não têm muitas personagens, não senhor, para não confundir as criancinhas; mesmo o tão popular Noddy não deve ter mais do que uns 4, 5 amiguinhos. Já Cláudio Ramos conseguiu atingir a fasquia dos 6, pelo menos: em Geneticamente Fúteis, há um «temido cronista social» (quem será ele?!) e mais cinco mulheres do meio cor-de-rosa, rapariguinhas de revista unidas por um traço comum. Adivinhem... A futilidade! Exactamente! É Cláudio Ramos quem o diz: «Elas têm coisas em comum, como, por exemplo, a futilidade». Lá está. Está-lhes nos genes, que podem as pobrezitas fazer?! Mas, voltando ao trabalho que isto, a invenção de um “pastel” vendável, dá. Cláudio Ramos, às tantas, fala de um laboratório. Ora, recordando o título do seu livro, Geneticamente Fúteis, pensamos logo que o rapaz, entusiasmado com os dotes dos rapazitos (e «rapazitas» também, claro) do CSI, resolveu basear o seu policial numa investigação criminal. Afinal, não; afinal, eu é que tinha razão ao estabelecer paralelismos com a indústria pasteleira, pois o laboratório de Cláudio Ramos foi... uma esplanada no Chiado. «Passei horas», conta ele, «de bloco na mão a observar as atitudes das mulheres. Preferi assim do que ler literatura do género.» Pois está claro, disso não temos nós dúvidas. Até porque, caro Cláudio, a “literatura do género” ainda está por inventar; talvez nisso você, caro cronista cor-de-rosa, seja um pioneiro. Ficará para sempre na história da literatura light portuguesa como o homem que criou o romance de esplanada.
02
Mar08

Condução Defensiva - Michaux

condutoras de domingo
Não é de hoje a conversa de que os livros têm o seu tempo de vida. Eu discordo, até porque quem partilha dessa opinião tem apenas em conta o tempo de vida comercial dos livros, o tempo que ficam nos escaparates, nas montras e nos tops. No entanto, esse tempo pouco tem a ver com os livros. E muito menos com livros como Equador, de Henri Michaux, editado pela Fenda, numa tradução de Ernesto Sampaio. O livro não é uma novidade, não tem uma capa “estridente”; foi publicado em Portugal em 1998, é pequenino e discreto, e é precisamente por isso que me apetece falar dele. É que não há novidades de que apeteça falar; ou melhor, há, mas estão afogadas nas montanhas de livros maus que se publicam diariamente. E, dessa confusão, de vez em quando, emergem livros antigos, como este Equador, esta viagem de Michaux que nos arranca daqui para fora. Michaux tinha cerca de 30 anos quando partiu para os Andes, as montanhas do Equador e as florestas do Brasil até chegar à foz do Amazonas. Mas, mais do que a viagem real deste livro, mais do que a descoberta do exótico, há a viagem pela memória e a obsessão em fixá-la ou, por vezes, criá-la, alterá-la e esvaziá-la com um bocado de imaginação e um frasco de éter - recursos indispensáveis para que se possa ter confiança num futuro ao qual nós, os leitores actuais de Michaux, já chegaram. Escreve ele assim às tantas: «Confio em que mais ou menos daqui a cem anos o mundo será amplo. Finalmente! Vai poder-se comunicar com os animais, falar-lhes. Pobres de espírito aqueles que não se apercebem deste movimento geral(...). Nessa altura, hão-de interrogar-se como foi possível subsistir tanto tempo este buraco monstruoso na civilização humana.» Há mais ou menos cem anos, Michaux soava a visionário; hoje, de certo modo, percebe-se que foi, em parte. O mundo já foi, de facto, amplo e a tecnologia, «as setas científicas e parafísicas» de que Michaux também fala tornaram-no pequeno, sem distâncias. E o que é certo é que a nossa vida é feita em constante comunicação com animais - não com exemplares do reino animal, é verdade; com os animaizinhos humanóides que andam por aí a governar este amplo mundo. Que seria de nós sem eles?!... Ou seja, «mais ou menos daqui a cem anos» é isto, este tempo em que continuamos a interrogar-nos como é possível susbistir tanto tempo este buraco monstruoso na civilização humana e em que poucos têm tempo para escrever livros sem tempo como os de Michaux. Por isso, o meu conselho é que leiam este livro, no qual Michaux também deixou os seus conselhos, como aquele em que lança o aviso: «ai dos que se contentam com pouco». E depois partam também na vossa própria viagem.
17
Fev08

Condução Defensiva - Luiz Pacheco

condutoras de domingo
Luiz Pacheco morreu há mais de um mês e o seu fantasma ainda não tinha aparecido aqui pelo nosso carro. Por isso, vamos aproveitar a recente publicação de O Crocodilo que Voa, um livro de entrevistas organizado por João Pedro George, para convidar Pacheco a sentar-se por uns minutos no lugar do morto. Dado o seu estado, não lhe fará certamente grande diferença. Talvez o incomode o facto – como nos incomoda a nós, mas a vida é assim... – de não se poder dizer muito mal deste livro. Pelo contrário: este é daqueles raros casos que têm passado por aqui e que se recomendam vivamente. É que o que está em causa neste Crocodilo que Voa são as palavras do escritor, do editor e do homem Luiz Pacheco, as suas opiniões excessivas, a sua capacidade de viver sem constragimentos sociais e morais, a sua coragem (que, na realidade, nem sequer é coragem porque, na cabeça de Pacheco, não houve nenhum medo nem nenhum perigo a enfrentar) de se assumir como um juiz “virulento e intempestivo” pronto a avaliar as contribuições que iam engordando a República das Letras e de achar que ser virulento e intempestivo é uma qualidade. Disse ele, em 1995, numa entrevista a Mário Santos, que «é muito prestimoso haver um gajo, que não é parvo de todo e que tem um bocado de experiência da literatura, que diz: isto é bom, isto não presta! (...) Porque, se tenho uma opinião, digo-a ou escrevo-a!» No fundo, estas entrevistas demonstram que não se pode compartimentar a vida de Luiz Pacheco; vida e obra coincidiram e foram levadas pela mesma personagem. Há, neste livro, muitos aspectos que divertem, muita afirmação polémica e maldosa que terá certamente deixado muita gente a vomitar durante dias. Mas, para mal dos pecados de Luiz Pacheco, também se tiram daqui algumas lições. Como aquela que demonstra que, para Pacheco, o equivalente a dizer bem de um escritor era editá-lo. Ou aquela em que, enviando uma mensagem às novas gerações, um singelo «puta que os pariu», revela ironicamente a sua face visionária... Mas vou-me calar. Comprem o livro e vão lendo uma entrevista de dois em dois dias. Todas de uma só vez é capaz de ser indigesto. Ou talvez não. Talvez possa inspirar alguém a cuspir as papas de debaixo da língua. E, agora, caro Pacheco, se não te importas, sai do carro que esta nossa viagem já acabou.
10
Fev08

Condução Defensiva - Família Portuguesa

condutoras de domingo

Chegou à minha caixa de correio uma boa surpresa, a edição especial d’A Família Portuguesa. O que é A Família Portuguesa? Também não sabia, mas, sendo uma edição especial de uma coisa para ler, resolvi folheá-la. E descobri que A Família Portuguesa é uma revista que, apesar do título fascizóide, pouco tem a ver com Portugal. Para além de ser propriedade de uma empresa dinamarquesa, de ser impressa na Alemanha e de ter como editora uma senhora de apelido Damkjaer, A Família Portuguesa aconselha os leitores a serem realistas em relação aos objectivos que pretendem alcançar. O que significa que dificilmente A Família Portuguesa vai conseguir ter, entre os seus leitores, um único português. Ou mais que um, vá lá, visto que a mim já me apanharam. Sobretudo porque grande parte da matéria de que se ocupa tem a ver com planos de emagrecimento.O que é que isso interessa às anafadas famílias portuguesas? Não sei. A família portuguesa real é feliz gorducha, com crianças de bolicao na mão e gomas nos dentes, com chefes de família indecisos entre uma trinca na costeleta e um golo na cerveja. São instantâneos do quotidiano nacional capazes de levantar o véu fascista desta revista. No fundo, esta publicação pretende impôr aos portugueses a ditadura das dietas medicamentosas e da saúde em comprimidos, recorrendo à mais degradante propaganda. Reparem: na capa, fotos que parecem tiradas numa máquina tipo passe abandonada há 50 anos numa esquina do Martim Moniz mostram gente contente por ter recuperado a saúde. Um senhor com uns 90 anos tem energia para dar e vender; uma senhora já não precisa de canadianas para andar; outra já não é dominada pela gulodice; e outra voltou a usar saias. Pelo meio, aparece Quimbé, apresentador de concursos na SIC, feliz, feliz por ter um joelho novo. Como estas pessoas conseguiram tanta saúde? Ingerindo CLA, bioactivo, sulfato de glucosamina, biloba forte, enfim, produtos impronunciáveis que nenhuma família portuguesa conseguiria aviar na farmácia. Já para não mencionar o facto de estes medicamentosserem poderosos inibidores do poder de queixa e lamentação do nosso povo. Com tanta saúde, como iriam sobreviver os velhotes portugueses? Sem a ciática, o que seria da nossa terceira idade? E os programas matinais dos nossos canais televisivos?! Seriam cancelados assim sem mais?! E o Natal dos hospitais? Por tudo isto, quer-me parecer que o único produto desta publicação com hipótese de saída entre nós é o Prelox, o “atalho natural para uma vida sexual activa”. É claro que se você, caro ouvinte, não for como o Tomás, um rapazito de 32 anos que só agora se transformou num homem de erecções matinais, escusa de abrir a caixa de correio nas próximas semanas. Para “família portuguesa”, já lhe deve bastar a sua...

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.

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