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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

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Condutoras de Domingo

14
Out07

Condução Defensiva - Vida Sexual da Mulher Feia

condutoras de domingo

Anda-se a falar muito da vida sexual dos feios. O tema que, antigamente, era apenas discutido em determinados círculos fechados começou a servir para encher páginas de livros. Um deles foi escrito pela brasileira Cláudia Tajes e chama-se A Vida Sexual da Mulher Feia. A grande tese vem na capa: «A mulher feia não é apenas uma deformação da estética. A mulher feia é um estado de espírito.»



Porém, o livro prova o contrário: usa a menos atraente e a mais subserviente das mulheres, uma tal Ju, e as suas falhadas aventuras sociais e sexuais para tentar demonstrar um aspecto que se diz relativo ao espírito. O facto de Ju ser feia não é, de maneira nenhuma, um estado de espírito; é a cruel realidade daquela mulher. E é isso que falha neste livro: tirando uma ou outra ocorrência em que a fealdade é tão óbvia que chega a doer, há demasiados momentos de uma comicidade tosca e forçada. É o caso do episódio em que a sinistra Ju recorda que andava sempre nua em casa até as suas «maminhas crescerem tanto que se tornou impossível lavar a loiça (...) sem que mergulhassem no lava-loiças»; ou o caso em que a cabeça de Ju é empurrada na direcção da zona púbica de um dos seus primeiros amores e ela comenta que «havia muitos cheiros ali», o do «jogo de futebol», o do «suor do meio-dia», o da «Coca-Cola não aproveitada pelo corpo».

Quase todos os casos que ilustram as várias teses sobre a mulher feia são aborrecidos e pouco eficazes. Não ficamos a saber mais do que já sabíamos na primeira página do livro: Ju é feia e burra, apesar de saber que há quem compense a falta de dotes físicos com o desenvolvimento dos intelectuais. Quem lê o livro perde mais depressa o interesse em Ju do que todos os homens que se foram aproveitando dela.
Eu, por exemplo, dei por mim a suspirar por textos de outras pessoas feias que também falam da sua vida sexual. Adília Lopes é uma delas. A poeta portuguesa escreveu uma autobiografia sumária - "Os meus gatos/ gostam de brincar/ com as minhas baratas"; de vez em quando, acrescenta-lhe outros elementos, como o facto de não ter vida sexual. Mas, em vez de gastar 140 páginas de papel, escreve apenas: «um dia/ tão bonito/ e eu/ não fornico.» Não será isto muito mais eficaz do que os episódios entediantes de Ju?

Eu acho que sim e, por isso, recomendo que não saiam de casa para comprar A Vida Sexual da Mulher Feia. Se não tiverem nas estantes de casa a Obra, de Adília, que parece que está esgotada, podem sempre sentar-se em frente ao computador e procurar o blog do Pedro Mexia – um homem que se diz feio e sem vida sexual. Não querendo ser ostensivamente bem-humorado e satírico, como Cláudia Tajes, Mexia é capaz de falar da incapacidade sexual bizarra de Pedro M.: «em vez de erecções, tem versos de Holderlin, evita o cunnilingus para dissertar sobre Pavese, e no momento do acto relembra, comovido, passos da vida de Kierkegaard.» Isto, sim, é compensar a falta de dotes físicos com o desenvolvimento da capacidade intelectual.

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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