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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

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Condutoras de Domingo

02
Mar08

Condução Defensiva - Michaux

condutoras de domingo
Não é de hoje a conversa de que os livros têm o seu tempo de vida. Eu discordo, até porque quem partilha dessa opinião tem apenas em conta o tempo de vida comercial dos livros, o tempo que ficam nos escaparates, nas montras e nos tops. No entanto, esse tempo pouco tem a ver com os livros. E muito menos com livros como Equador, de Henri Michaux, editado pela Fenda, numa tradução de Ernesto Sampaio. O livro não é uma novidade, não tem uma capa “estridente”; foi publicado em Portugal em 1998, é pequenino e discreto, e é precisamente por isso que me apetece falar dele. É que não há novidades de que apeteça falar; ou melhor, há, mas estão afogadas nas montanhas de livros maus que se publicam diariamente. E, dessa confusão, de vez em quando, emergem livros antigos, como este Equador, esta viagem de Michaux que nos arranca daqui para fora. Michaux tinha cerca de 30 anos quando partiu para os Andes, as montanhas do Equador e as florestas do Brasil até chegar à foz do Amazonas. Mas, mais do que a viagem real deste livro, mais do que a descoberta do exótico, há a viagem pela memória e a obsessão em fixá-la ou, por vezes, criá-la, alterá-la e esvaziá-la com um bocado de imaginação e um frasco de éter - recursos indispensáveis para que se possa ter confiança num futuro ao qual nós, os leitores actuais de Michaux, já chegaram. Escreve ele assim às tantas: «Confio em que mais ou menos daqui a cem anos o mundo será amplo. Finalmente! Vai poder-se comunicar com os animais, falar-lhes. Pobres de espírito aqueles que não se apercebem deste movimento geral(...). Nessa altura, hão-de interrogar-se como foi possível subsistir tanto tempo este buraco monstruoso na civilização humana.» Há mais ou menos cem anos, Michaux soava a visionário; hoje, de certo modo, percebe-se que foi, em parte. O mundo já foi, de facto, amplo e a tecnologia, «as setas científicas e parafísicas» de que Michaux também fala tornaram-no pequeno, sem distâncias. E o que é certo é que a nossa vida é feita em constante comunicação com animais - não com exemplares do reino animal, é verdade; com os animaizinhos humanóides que andam por aí a governar este amplo mundo. Que seria de nós sem eles?!... Ou seja, «mais ou menos daqui a cem anos» é isto, este tempo em que continuamos a interrogar-nos como é possível susbistir tanto tempo este buraco monstruoso na civilização humana e em que poucos têm tempo para escrever livros sem tempo como os de Michaux. Por isso, o meu conselho é que leiam este livro, no qual Michaux também deixou os seus conselhos, como aquele em que lança o aviso: «ai dos que se contentam com pouco». E depois partam também na vossa própria viagem.

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.

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