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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

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Condutoras de Domingo

07
Out07

Condução Defensiva - António Lobo Antunes

condutoras de domingo
Há uns meses, António Lobo Antunes comunicou aos portugueses que tinha cancro. Para isso, escreveu uma crónica, publicada na Visão. O texto era comovente e afligiu os leitores do escritor. Mas também afligiu quem nunca o leu, quem sabe vagamente quem ele é e quem acha as revistas cor-de-rosa de difícil leitura. Mesmo essas pessoas trocaram mails e sms, lamentando o cancro deste “senhor que já vendeu muitos livros, ganhou muitos prémios e aparece de vez em quando na televisão”. Até Manuel Luís Goucha, puxando do lencinho do bolso, deve ter tentado falar do cancro de Lobo Antunes, se o assunto Literatura não fosse automaticamente censurado nas Manhãs da TVI.

É que Lobo Antunes é mesmo indissociável do assunto Literatura. E, quando deixa de o ser, nasce um ruído ensurdecedor em torno dele. É tão óbvio que Lobo Antunes é um excelente escritor que já se tornou inútil afirmá-lo. Mas será ele um escritor completo?

A resposta está escondida numa entrevista recente. Depois de ter sido operado ao cancro, o intocável Lobo Antunes aparece sem máscara. É o que ele diz: diz que recebeu de pessoas anónimas lições de dignidade e coragem; que escrever livros não lhe dá um mérito por aí além; que sofreu muito; que tomou consciência da própria finitude; que já não mente nem compõe o perfil. Apetece dizer: bem-vindo ao mundo dos mortais, caro Lobo Antunes.

É mais ou menos o que faz Manuel António Pina numa crónica da passada terça-feira. A última frase desse texto sintetiza tudo o que há a dizer sobre isto: «Lobo Antunes seria uma boa personagem de um romance de Lobo Antunes se este fosse dado à tragicomédia». O que acontece é que a entrevista de Lobo Antunes é um acumular de contradições: por um lado, o escritor diz que os livros são a única realidade que existe; por outro, expõe-se, constrói outra personagem infalível, mesmo nas suas vulnerabilidades. Ele, para ele, é o maior escritor português de sempre. Tem graça é que muitas das coisas lúcidas que diz já os outros “escritores-portugueses-não-tão-geniais-como-ele-para-ele” o disseram antes dele. Parece que Lobo Antunes se sentiu grávido da morte, mas nem assim compreendeu que estamos todos, génios ou não, a bordo do barco do esquecimento. Quantos se lembram ainda do sorriso a meia-cara que José Rodrigues Miguéis lançou à morte?

É esta a grande razão que falta a Lobo Antunes: achar que se expõe mais nos livros do que fora deles. Ser verdadeiro não significa dizer tudo. Significa apagar aquilo a que Pina chamou o “rosto público”.

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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