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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

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Condutoras de Domingo

28
Set07

Condução Defensiva - Trasladações

condutoras de domingo
Esta semana, o país – e as televisões! - acordou para um fenómeno ainda por descobrir: o espectáculo das transladações.
Foi tão bonito ver a transmissão em directo, com comentários de especialistas em transporte de senhores antigos que já faleceram há muito. E foi ainda mais bonito ouvir o povo, que já não se manifestava numa cerimónia desta desde a morte da Amália, dizer que fazia muita questão de estar ali para acompanhar a transladação para o panteão daquele “senhor escritor”, “desse que fez uns livros”, “do coiso”.
Há um conto de Aquilino Ribeiro em que uma personagem, às tantas, pergunta «Que diabo vimos para aqui fazer?». O conto chama-se «A pele do bombo» e faz parte da obra Jardim das Tormentas, publicada em 1913. Foi a estreia literária de Aquilino.
94 anos depois, Aquilino estreia-se noutras andanças, não por vontade própria, mas por iniciativa institucional: os restos mortais do escritor foram esta semana trasladados para o Panteão Nacional, o lugar para onde vão “continuar a morrer” os portugueses supostamente ilustres. Alguns deles, se ainda pudessem falar, quase de certeza que teriam vontade de repetir a pergunta do conto de Aquilino. É que isto das homenagens tem sobretudo a ver com a memória ou, melhor, com a tentativa de evitar o esquecimento. Por isso, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro e agora Aquilino teriam toda a razão em perguntar «Que diabo vimos para aqui fazer?», que é como quem diz, «Que diabo! Vocês sabem quem nós somos?»
Muita gente não deve saber; e essas pessoas perderam uma infância cheia de histórias partilhadas com a raposa Salta Pocinhas. Provavelmente porque estavam ocupadas a ler a Cartilha Maternal, de João de Deus, um dos poetas de quem os restos mortais de Aquilino são agora vizinhos.
Em 1895, um ano antes da morte de João de Deus, um jornal nacional homenageava assim este poeta: «João de Deus é como a flor do campo, que rebenta formosa sem cultivo, velada apenas pela graça de Deus, o jardineiro supremo. As suas poesias são verdadeiras flores do campo, mas das mimosas, das encantadoras na sua singeleza, das que, guardadas num álbum, conservam perfeitamente a delicadeza da forma, o colorido transparente da corola, o aveludado do cálice, a disposição encantadora das pétalas.» Ora isto faz-me pensar que João de Deus não é a companhia ideal para os restos mortais de ninguém, muito menos para os de um mestre da língua portuguesa. Bem sei que o universo literário de Aquilino Ribeiro é muito marcado pela Natureza e por um forte apego à terra, mas nunca por frases à João de Deus, como «a vida é o dia de hoje» ou «a vida é ai que mal soa». Em suma, Aquilino foi um homem com critério – e critério é coisa que me parece que falta dentro do Panteão. Valha-nos o facto de Garrett e Guerra Junqueiro também lá estarem.
Polémicas à parte, talvez o mais importante desta trasladação seja andar agora toda a gente a falar de Aquilino Ribeiro, a lembrar que ele escreveu livros como Quando os lobos uivam ou Casa do Escorpião. Porque, no meio do ruído, pode ser que alguma «alminha do Senhor» se ponha ao volante de um automóvel em direcção a uma livraria para comprar A Casa Grande de Romarigães ou O Malhadinhas, dois dos romances de Aquilino que agora a Bertrand reedita com ilustrações de João Abel Manta. E, mais, que vá mesmo para casa ler o livro de Aquilino e fique tão contente com isso que depois lhe vá uma flor ao Panteão. Parece que só Amália é que as recebe. Não acho justo. Aquilino merece todas as flores, sobretudo agora que lhe puseram os restos mortais perto dos de Carmona.
A transladação de Aquilino Ribeiro acendeu a polémica dos critérios de escolha de quem tem direito a ficar no Panteão Nacional.
Houve quem defendesse Aquilino por toda a obra e influência política no país, houve quem o condenasse por ter sido um regicida e pessoa com mau feitio.
Para que não haja mais discussões e, sobretudo, mais debates na televisão sobre o assunto, as Condutoras de Domingo propõem que a partir de agora se decide quem vai para o Panteão através de votação por SMS.
Afinal, se deixaram o pessoal escolher quem era o melhor português de sempre – e até saiu a um morto – não vemos porque é que não se há-de fazer uma votação para ver quem merece ir parar ao Panteão: um político barbudo com nome de rua ou um miúdo que se espatifou todo e fazia parte dos Morangos com Açúcar? A escolha é sua!

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