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Condutoras de Domingo

Elas em contramão, sempre a abrir, pelos acontecimentos da semana.

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Condutoras de Domingo

22
Jun08

Condução Defensiva - Ronaldolândia

condutoras de domingo

É tempo de abandonar o Guia Euro 2008 do DN. Faço-o com uma lágrima no canto do olho que paulatinamente se começa a misturar com um sorriso capaz de espalhar a felicidade por este nosso carro. A razão chama-se Ronaldolândia e bem que podia ser um passeio radical pelos 184 centímetros que perfazem esse agradável parque de diversões humano que responde pelo nome de Cristiano Ronaldo. Começávamos a escorregar pelo gel do cabelo, descíamos em direcção à zona turbulenta do abdómen, em tudo semelhante às ondas simuladas de um parque aquático, e terminávamos em plena biqueira, com um chuto capaz de nos transportar para a estratoesfera sem necessidade de passar pela casa da partida e pagar fosse o que fosse. Muito melhor que qualquer feira popular, sem dúvida. Mas, infelizmente, Ronaldolândia não é um parque de diversões; é um livro escrito por José Marinho, esse grande vulto da literatura desportiva, no qual se contam os segredos do futebol moderno. Logo aqui temos que parar para pensar, coisa rara no desporto rei, mas assaz frequente na literatura desportiva. Que é isto do futebol moderno? Parece que o futebol moderno é diferente daquele que se praticava há 20 anos. Isto até o senhor de Lapalisse diria. Só não diria, se calhar, a frase poética com que neste livro se distingue esse futebol de há duas décadas do moderno: ao que parece, nesse tempo, ouçam bem, «a bola era redonda, mas o mundo não saía da quadratura imensa das ideias generosas.» Isto não é apenas poesia, é geometria poético-literária, à qual se recorre para sustentar que o futebol moderno «não tem tanto para dar aos seus adeptos» porque – e continuo a citar - se «perdeu a meio caminho da sua evolução e tirou aos pobres para dar aos ricos. Antes, era uma festa, hoje é um exagero.» Ou seja, o futebol moderno é o protótipo do herói moderno: egoísta, ganancioso, corrupto, entediante, desmedido, inconsequente - uma criatura execrável, em suma, sobre a qual, mesmo assim, vale a pena reflectir em livro, numa tentativa de equilibrar a coisa e devolver algum aos pobres. Lá está: antigamente, dizia-se «em terra de cegos quem tem olho é rei»; agora, diz-se «em terra de pobres quem saca ao desporto-rei é rico». E isto é apenas uma das técnicas que se pode aprender com Ronaldolândia. As outras têm a ver com o Euro 2008, o Cristiano e a táctica 4-4-2 e sobre elas falam personalidades como Valdano, Humberto Coelho e Mourinho. Mosqueteiros unidos em nome de um objectivo, que é como quem diz todos por um: o bom futebol. Mourinho resume-o assim (em bom português, ainda): «O futebol de ataque começa quando o Makelele pega na bola e passa para o lateral-direito, que está mais avançado e toma conta da situação. Se pode fazer qualquer coisa, ou corre pelo seu flanco ou passa para um companheiro mais adiantado. Se não controla a situação, volta para trás e devolve a bola a Makelele. Isto para mim é que é o futebol de ataque.» Isto para mim é que é uma verdade de Lapalisse – uma daquelas que, escrevendo Petit onde está escrito Makelele, transformaria este Euro 2008 no mais entusiasmante parque de diversões.

 

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Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.

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Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.

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