as condutoras
Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.
Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.
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Domingo, 3 de Fevereiro de 2008
Condução Defensiva - António Alfacinha
Poucas coisas sabem tão bem como poder ler uma história da Turma da Mônica. Sobretudo para aqueles que pertencem a uma geração que cresceu ao ritmo das pequenas aventuras do Cebolinha, do Cascão, da Magali e de todas as personagens com sotaque brasileiro imaginadas por Maurício de Souza. É o meu caso e, por isso, não resisti a correr para as bancas quando soube que, no último número dedicado ao Cebolinha, é apresentado António Alfacinha, o miúdo luso. Foi há um ano que, em homenagem aos portugueses, Maurício decidiu criar a personagem. O miúdo luso é um rapaz de Lisboa, com roupa a condizer com as cores da nossa bandeira e um penteado que tanto nos traz à memória um belo bigodaço à portuguesa como o cabelo de Paulo Bento. Para além disso, fala português de Portugal, isto é, sem sotaque brasileiro. São, aliás, as diferenças culturais e linguísticas entre Alfacinha e os seus novos amigos brasucas o nervo das primeiras histórias protagonizadas pelo miúdo luso. Muitas dessas diferenças são assinaladas, nos quadradinhos, pelo próprio Maurício para que não passem por erros, o que inevitavelmente nos faz pensar nas muitas discussões sobre o acordo ortográfico. Mas estas histórias, por si só e sem querer, demonstram que o acordo resolveria apenas parte da questão. As expressões, o modo de falar, as referências, mesmo com acordo, seriam diferentes. Por exemplo, António Alfacinha, por tudo e por nada, sai-se com um «ó pá» e com um «ora, pois», nunca com um «qualé»; em vez de «bacana» diz «porreiro»; em vez de «legal» diz «bestial»; e para ele «apelido» não é «sobrenome». Tudo isto deixa as outras personagens entre o divertido e o confuso, sem perceberem se aquele minúsculo e provocador exemplar do bom português está ou não a gozar com a cara deles. No entanto, há algumas fragilidades nestas histórias, há frases e palavras que Maurício põe na boca do miúdo luso que a mim, também tão lusa, me deixaram com vontade de consultar o dicionário. Nem numa caricatura faz sentido Maurício achar que o miúdo luso não sabe que ser frangueiro é deixar entrar golos absurdos ou achar que um miúdo daquela idade diz «borracho avoado» em vez de «pombo» e «gaja» em vez de «miúda». Mas, enfim, tudo se perdoa a Maurício, até porque há detalhes muito bons nestes quadradinhos. Como quando Alfacinha se apaixona à primeira vista pela temível Mônica, tentando conquistá-la com bolinhos de bacalhau e pastéis de Santa Clara. Ou seja, como bom português que é, o rapaz gosta delas cheiinhas e sabe que tem boas hipóteses se investir na satisfação do estômago. Para além disso, a história consegue ser tão eficaz que acabo de reparar que, ao longo de todo o tempo que estive com o livro nas mãos, as falas do miúdo luso foram lidas mentalmente em português e as das personagens da Turma da Mónica em brasileiro. E isso, rapaziada, para mim, mais do que bestial, é bem legal!



publicado por condutoras de domingo às 11:57
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