as condutoras
Condutoras de Domingo é um programa da Antena 3. Um percurso semanal (e satírico) pelos principais assuntos da actualidade e pelo país contemporâneo.
Todos os domingos na Antena 3, entre as 11:00h e as 13:00h. Um programa de Raquel Bulha e Maria João Cruz, com Inês Fonseca Santos, Carla Lima e Joana Marques.
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Domingo, 14 de Outubro de 2007
Serviços de Urgência

Na semana que passou, os hospitais voltaram a estar na berlinda. Não por causa do encerramento de mais uma urgência, não pelas intermináveis listas de espera, nem tão pouco porque a ASAE, à falta de sítios para fechar (que já vão sendo poucos), decidiu atacar as sandes das cantinas dos hospitais. Não. Desta vez foi devido àquilo que parece ser um choque entre a realidade e a ficção. Durante anos, mulheres por todo o mundo fingiram taquicardias e pontadas na esperança de que uma ida às Urgências as fizesse conhecer George Clooney. Essas mesmas mulheres estão hoje em dia a beber o Martini do anúncio como se não houvesse amanhã, na esperança de que o senhor ainda lhes apareça à frente, estando a um pequeno passo do alcoolismo. Enfim, vidas arruinadas. Mas não se julgue que aquilo que se vê na televisão deixou de afectar o que se espera numa ida ao hospital. Aliás, está pior do que nunca. Quem se queixa é Rui Santos – não é o dos comentários de futebol, é o da Sociedade Portuguesa de Educação Médica. Diz ele que séries como o Doutor House ou a Anatomia de Grey “deturpam a realidade” e “criam determinadas expectativas”. Já estamos a imaginar velhotas delirantes por estarem a ser mal tratadas pelos médicos, só porque viram no Doutor House que é assim que se faz. É o médico do Amadora-Sintra a gritar-lhes e elas a pensarem “olha que competente, se me está a chamar nomes é porque me vai descobrir uma bactéria raríssima que apanhei por ter usado umas meias de nylon depois de ter cortado mal as unhas”. Isto enquanto imaginam que todos os médicos e enfermeiras daquela unidade hospitalar devem andar a mandar rapidinhas nos armários das vassouras, como na Anatomia de Grey. E que até devem usar aquele método das bolinhas coloridas, não para catalogar graus de gravidade de doenças mas sim para ver, numa escala de 0 a 10, quem é mais McDreamy. E depois choram todos muito.






Queixam-se os médicos portugueses que os utentes querem agora ser tratados como nas séries, com choques de desfibriladores por dá cá aquela palha. Mas é óbvio que as duas realidades não têm nada a ver. É só fazer contas. Ora um episódio destas séries tem em média 50 minutos. Isto representa para aí um oitavo do tempo de espera só para se conseguir entrar no consultório, depois de se ter estado entre crianças com lápis enfiados nas narinas, idosos a tossir o seu baço e pessoas que levaram com um calhau no terramoto de 1755 e ainda estão à espera de serem atendidas.

Depois há a parte das operações. Cada season destas séries americanas tem o quê? Uns 18 episódios que a fazem durar outras tantas semanas? Desde quando é que isso dá tempo para que chegue a nossa vez nas listas de espera dos hospitais? Era precisa uma série mais longa que o Dallas. E aí saberíamos logo quem matou o JR: foi o tempo de espera.



publicado por condutoras de domingo às 12:12
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